Ratinho Junior e Sergio Moro trocaram gentilezas eleitorais pelas redes sociais a propósito das penitenciárias de segurança máxima. O governador falou em “candidato da mentira”. Moro respondeu considerando “espantoso” que candidatos e governadores desconheçam o básico em segurança pública. Nenhum precisou citar o nome do outro. A delicadeza ainda resiste.
Ofendículas armadas
A assessoria de Sergio Moro parece ter entrado naquela fase da campanha em que se anda com as ofendículas armadas. Um colega contou à coluna que publicou uma observação sobre o registro da candidatura do senador sem o plano de governo e recebeu uma reação bastante irritada, embora tivesse escrito que não havia ilegalidade e que o prazo continuava aberto.
Zelo é recomendável em campanha. Convém apenas calibrar o radar. Até outubro haverá ataque de verdade suficiente para ocupar assessores, advogados e marqueteiros.
Cadeira com regulamento
A cadeira vazia deixada por Sergio Moro no debate da Band ganhou carreira própria. No próximo confronto promovido pelo Grupo RIC, em setembro, se um candidato faltar haverá rodada adicional entre os presentes e o púlpito vazio será mostrado, acompanhado da justificativa da ausência.
Depois da Band, descobriu-se que até a ausência pode participar do debate. No ritmo atual, daqui a pouco cadeira vazia também terá direito de resposta.
Três minutos de briga
A Assembleia Legislativa resolveu economizar justamente num recurso que alguns parlamentares utilizam com abundância: o tempo das explicações pessoais. A mudança no Regimento reduziu de dez para três minutos esse espaço, frequentemente usado para ataques, respostas e acertos de contas.
A melhor parte está no cronômetro: foram necessários apenas um minuto e dez segundos para decidir que três minutos bastam. Uma demonstração admirável de síntese. Agora falta descobrir se os deputados conseguirão dizer em 180 segundos aquilo que antes levavam dez minutos para explicar.
Existe uma discussão técnica por trás da briga, porque os dois falavam de conceitos diferentes de segurança máxima. A campanha poderia aproveitar a divergência para discutir segurança pública. Preferiu começar pelo adjetivo.
A fronteira agora é outra
A frase com que a vereadora Delegada Tathiana Guzella sugeriu à colega Vanda de Assis que “voltasse para o Ceará” atravessou uma fronteira que talvez não estivesse nos planos. A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público e Tathiana tornou-se ré por preconceito ou discriminação em razão da procedência nacional.
A vereadora nega xenofobia e terá oportunidade de apresentar sua defesa. Depois de indicar à colega o caminho de volta para o Ceará, terá agora uma viagem bem mais curta pela frente: da Câmara de Curitiba até os autos da Justiça.
Quatrocentos mil
A Secretaria de Estado do Turismo destinou R$ 400 mil para um espaço institucional de 200 metros quadrados no Fight Music Show, realizado em julho, em Ponta Grossa. A contratação foi feita por inexigibilidade e o valor equivale a R$ 2 mil por metro quadrado.
Promoção turística custa dinheiro e eventos podem gerar retorno. Com R$ 400 mil envolvidos, porém, seria interessante conhecer público alcançado, exposição obtida, contrapartidas e resultados. A conta pode até fechar. Por esse preço, seria elegante mostrar a calculadora.
Devolva-se
Durante anos, os penduricalhos do Judiciário produziram resoluções, limites e uma criatividade remuneratória capaz de desafiar qualquer planilha. Agora ministros do Supremo acrescentaram à discussão um verbo mais fácil de compreender: devolver.
Sete tribunais, entre eles o TJ do Paraná, terão de identificar beneficiários de pagamentos acima dos limites estabelecidos e cobrar a restituição dos valores considerados indevidos. Talvez esteja aí uma pequena revolução administrativa: em vez de apenas mandar parar, mandar devolver.
Currículo com pós-produção
Flávio Bolsonaro descobriu que seu currículo oficial havia estudado mais do que ele. Páginas institucionais registravam uma pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ que, segundo a universidade, ele nunca cursou. A campanha reconheceu o erro e pediu a correção.
Flávio possui formação verdadeira suficiente para dispensar o adereço. Fica uma providência para candidatos antes do início da campanha: conferir se frequentaram todas as escolas que seus currículos frequentaram por eles.
A fonte é a fonte
A diligência autorizada por Alexandre de Moraes contra um homem apontado como possível fonte do jornalista Luís Pablo abriu uma discussão que precisa ultrapassar as torcidas em torno do Supremo. O Estado pode investigar eventual acesso criminoso a sistemas públicos. A Constituição protege o sigilo da fonte necessário ao exercício do jornalismo.
O limite entre essas duas prerrogativas precisa ser cristalino. Uma democracia que ensina suas fontes a terem medo termina ensinando seus jornalistas a não perguntarem.
O governo começou antes
Abelardo de la Espriella havia assumido a Presidência da Colômbia três dias antes de um terremoto de magnitude 7,4 atingir o país. Centenas morreram ou estão desaparecidas, e o novo governo decretou emergência econômica para financiar a reconstrução.
De la Espriella certamente imaginava escolher os primeiros assuntos do mandato. A terra decidiu por ele. Campanha permite selecionar prioridades e adversários; governo tem a inconveniência de receber a realidade sem hora marcada.
