O trabalho de Moro está só começando; costuras e política de verdade

Foto Divulgação / Victor Coutant

A URNA ACABOU. O JOGO COMEÇOU

Sergio Moro ainda nem recebeu a chave do Palácio Iguaçu e já começou a descobrir que ganhar a eleição era apenas uma parte do trabalho. Ao redor dele, antigos adversários medem distâncias, novos deputados descobrem o tamanho que ganharam e velhas famílias políticas mostram uma impressionante capacidade de renovação sem necessariamente mudar de sobrenome. A campanha acabou. Agora vem aquela parte menos televisionada da política, quando é preciso montar governo, conversar com quem estava do outro lado e descobrir que algumas promessas cabem no discurso com muito mais facilidade do que no orçamento.

CURI ATRAVESSARÁ O RUBICÃO?

Alexandre Curi e Sergio Moro terminaram a eleição em lados diferentes. A eleição terminou. Curi já fala em diálogo com o governador eleito para conduzir a votação do orçamento de 2027, enquanto Moro precisará construir uma relação com a Assembleia que vai muito além de uma peça orçamentária. E ainda há a eleição da Mesa logo ali. Curi conhece aquela Casa, seus corredores e seus 54 habitantes como poucos. Não dá para dizer que atravessará o Rubicão. Mas já existem boas razões para observar se, passada a eleição, ele decidirá chegar à outra margem.

RICARDO BARROS É OUTRA CONVERSA

Com Ricardo Barros, a conversa é outra. O distanciamento político em relação a Moro é conhecido e atravessou a própria construção da eleição de 2026. Barros acaba de ser reeleito deputado federal, preside a Federação União Progressista no Paraná e ainda tem Maria Victoria entre os nomes que circulam para a presidência da Assembleia. Não parece exatamente alguém fazendo as malas para embarcar no novo governo. Só não convém transformar distância em eternidade. Ricardo Barros já viveu política suficiente para saber que adversário é uma condição que pode durar quatro anos, quatro meses ou até a próxima conversa.

MORO ABRIU A CAIXA DE FERREMENTAS: JÁ PEGOU AS TESOURAS

Sergio Moro avisou que pretende reduzir as 24 secretarias do governo estadual. É daquelas notícias que produzem aplauso antes mesmo de alguém perguntar quais secretarias desaparecerão. E aí começa a parte divertida. Secretaria não é apenas placa na porta. Tem orçamento, cargos, partidos, regiões, aliados e gente que já estava escolhendo onde colocar a mesa. Moro terá de enxugar a máquina ao mesmo tempo em que constrói uma base para governar. Cortar organograma é fácil. Difícil é descobrir quem aceita ser cortado.

JÉSSICÃO EXPLODIU AS GAVETAS

Jessicão chega à Assembleia com mais de 131 mil votos, uma das maiores votações do Paraná e a maior entre as mulheres. Vereadora de Londrina, bolsonarista, conservadora, casada com uma mulher e seguida por mais de 600 mil pessoas nas redes sociais, ela reúne numa mesma personagem características que parte da política ainda insiste em guardar em gavetas diferentes. Talvez seja justamente por isso que sua eleição mereça atenção. Enquanto muita gente continua tentando explicar o eleitor com etiquetas prontas, o eleitor vai lá e troca as etiquetas de lugar.

A FAMÍLIA QUE CABE EM DOIS PLENÁRIOS

Fernando Francischini volta à Câmara dos Deputados com 53.207 votos. O filho Felipe Francischini foi reeleito com 106.907. Na Assembleia, Flávia Francischini renovou o mandato e Lu Bonatto também foi eleita. A partir de 2027 serão quatro integrantes da família ocupando cadeiras legislativas pelo Paraná, dois em Brasília e dois em Curitiba. A eleição derrubou sobrenomes tradicionais, aposentou algumas certezas e renovou 42,59% da Assembleia. No caso dos Francischini, houve renovação também. Só não precisou trocar muito a lista de contatos da família.

CURITIBA FICOU SEM ESTEPE

Paulo Martins foi eleito deputado federal e sua posse deixará Curitiba sem vice-prefeito. Não haverá eleição para preencher a vaga. Eduardo Pimentel continua prefeito e, numa eventual ausência, a linha sucessória chega à presidência da Câmara Municipal. É uma dessas consequências que passam quase despercebidas no meio da apuração. O curitibano digitou um número para mandar Paulo Martins a Brasília e acabou mexendo também na linha sucessória do Palácio 29 de Março. A urna tem dessas coisas. Às vezes o voto viaja mais do que o candidato.

TROCA CINCO SEM ABRIR A URNA

A Câmara de Curitiba também ganhará outra configuração em 2027. Cinco vereadores deixarão seus mandatos e cinco suplentes assumirão as cadeiras. Tudo rigorosamente dentro das regras, mas com um resultado curioso: a Câmara escolhida pelo eleitor em 2024 chegará à metade da legislatura com outra composição sem que ninguém precise apertar o botão verde novamente. Mandato dura quatro anos. Algumas cadeiras, pelo visto, preferem trabalhar em sistema de rodízio.

O TCE DESTRAVOU O BRT

O Tribunal de Contas liberou a retomada da licitação de R$ 94 milhões do Lote 3 do BRT Leste-Oeste de Curitiba, suspensa desde julho. O corredor integra uma das principais intervenções na mobilidade da capital. Tribunal de Contas costuma parecer um universo de acórdãos, representações, cautelares e palavras que fazem o leitor procurar rapidamente outra página. Até o dia em que uma decisão destrava R$ 94 milhões e interfere no ônibus, no trânsito e no caminho de casa. Aí o juridiquês pega o coletivo.

QUANDO O EXCEPCIONAL VIRA FREQUENTE

Todas as estações do Simepar terminaram setembro com chuva acima da média histórica e, em pelo menos 14 delas, foi o setembro mais chuvoso de toda a série disponível. Outubro chegou e os temporais continuaram. Talvez esteja na hora de prestar atenção também no vocabulário. Quando um fenômeno chamado excepcional começa a aparecer com frequência, alguma coisa deixou de ser tão excepcional assim. Para prefeitos, Defesa Civil, estradas e planejamento urbano, a discussão já não pode ser apenas sobre quando vai parar de chover. Precisa ser também sobre como preparar cidades para quando começar de novo.

PEQUIM MEXEU NO PREÇO DO BOI

A cota brasileira de carne bovina para o mercado chinês acabou e a tarifa total de entrada do produto chegou a 67%. Frigoríficos paranaenses acompanham a conta porque a China não é exatamente um cliente que se substitui procurando outro na agenda do telefone. Ao mesmo tempo, o agronegócio paranaense acaba de entregar ao próximo governo mais de 360 propostas envolvendo crédito, seguro rural, logística, endividamento e clima. Moro ainda nem assumiu e já pode descobrir uma característica interessante do cargo: governa o Paraná, mas algumas dores de cabeça chegam de Pequim.

O VELHO VIROU NOVO NEGÓCIO

Curitiba é a capital brasileira com maior presença proporcional de estabelecimentos dedicados ao comércio de produtos usados, enquanto o Paraná lidera entre os estados. Brechós, sebos e lojas de segunda mão deixaram de ser apenas endereço de quem procurava pagar menos. Viraram mercado, comportamento e escolha de consumo. Há algo curioso numa economia em que tanta gente ganha dinheiro vendendo aquilo que outra pessoa já não queria. O usado, definitivamente, não está mais fora de moda.

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