Debate ao vivo tem uma perversidade que campanha nenhuma consegue neutralizar: não tem edição. Programa de governo pode ser revisado, vídeo pode ganhar nova tomada, frase ruim pode morrer na ilha de edição. No estúdio, acabou. O adversário atravessa o caminho, a pergunta vem pelo lado errado, o tempo corre e, quando o roteiro termina, aparece o candidato com seus recursos, seus vícios, seus reflexos e, às vezes, seus pequenos desastres.
Foi isso que a RPC ofereceu ao eleitor paranaense. Mais do que revelar novidades programáticas de Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho, colocou os três num ambiente em que ninguém tinha domínio completo da cena. E aí, convenhamos, o debate ficou mais interessante.
Moro entrou querendo mandar. Escolheu Sandro logo de saída, subiu o tom, tentou retirar Ratinho Junior da conversa e propôs uma espécie de pacto improvável: ele não falaria de Lula se Sandro não falasse do governador. Era uma provocação com endereço certo. Moro queria desmontar o principal ativo político do adversário e, ao mesmo tempo, se apresentar como candidatura com vida própria. Funcionou enquanto ele perguntava. O problema começou quando os outros perceberam que a biografia política de Moro rende assunto. E rende bastante.
Sandro e Requião voltaram a Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Lava Jato, Supremo, rompimentos e mudanças de rota. Moro, que havia entrado para colocar os adversários na parede, passou parte da noite explicando a própria trajetória. Não perdeu o controle, não desmoronou e continuou oferecendo conteúdo em segurança, combate à corrupção e gestão, mas ficou evidente que seu passado político é um adversário extra em qualquer debate. Quando consegue impor a pauta, cresce. Quando precisa explicar a si mesmo, perde tempo e terreno.
As gafes de “alfebetização” e “paraenses” são quase irrelevantes diante de duas horas de discussão política, mas televisão tem esse péssimo gosto por acidentes. O candidato pode falar de segurança pública, concessões, gestão e hospitais durante minutos, mas basta tropeçar numa palavra para o corte sair correndo na frente de todo o resto. É injusto? Talvez. Mas é televisão.
Sandro Alex fez outra opção. Não fugiu da briga. Pelo contrário, entrou nela com gosto e, em alguns momentos, até com gosto demais. Mostrou repertório administrativo, domínio de obras, estradas, hospitais e ações do governo Ratinho Junior, principalmente quando conseguiu levar o debate para infraestrutura e gestão. Ali estava seu melhor terreno. Quando perguntava sobre rodovias ou cobrava respostas concretas, obrigava Moro a sair da zona de conforto e mostrava conhecimento de quem passou pela máquina estadual.
Só que Sandro carregava um dilema visível. Tem um governo para defender, mas precisa convencer o eleitor de que também tem um governo próprio para oferecer. Em vários momentos, falou com segurança sobre aquilo que Ratinho Junior fez, mas nem sempre deixou igualmente claro o que seria o governo Sandro Alex. Continuidade pode ser um baita ativo eleitoral, mas precisa ter algum sotaque próprio.
E houve outro risco. Sandro raramente deixou provocação sem resposta. Isso dá presença, mostra disposição e evita a impressão de passividade. Só que nem toda bola precisa ser devolvida. Em alguns momentos, Moro puxava a conversa para Bolsonaro, traições e coerência ideológica, e Sandro embarcava junto. Nessa hora, abandonava justamente o terreno onde parecia mais confortável, que era a administração do Paraná, para discutir uma novela nacional que os dois conhecem de cor e o eleitor talvez já esteja cansado de assistir.
Requião Filho assistiu ao início dessa luta como quem encontra uma cadeira boa diante do ringue. Chamou a disputa de “divertidíssima” e percebeu rapidamente que havia espaço entre os dois. Tentou ocupá-lo falando de educação, funcionalismo, violência contra a mulher, Copel, Sanepar e serviços públicos. Quando conseguiu escapar da briga de identidade da direita, fez um debate próprio e reconhecível.
A ironia é uma ferramenta que Requião domina e utilizou sem muita economia. Houve momentos bons, em que ela serviu para desmontar a solenidade dos adversários e produzir contraste. Em outros, começou a parecer hábito. A mesma coisa ocorreu com algumas de suas bandeiras. Não faltou conteúdo, mas houve repetição. Copel, Sanepar, funcionalismo, educação e crítica ao modelo do governo voltavam com tanta frequência que, em determinados momentos, o discurso parecia uma enceradeira: circulava, fazia barulho, deixava o piso brilhando, mas continuava trabalhando no mesmo metro quadrado.
Só seria injusto entregar a enceradeira apenas a Requião. Moro e Sandro também tiveram a sua. A deles rodava em torno de Bolsonaro, Lula, Flávio Dino, traição, fidelidade e identidade da direita. Bastava a conversa ameaçar escapar para uma política pública estadual e, de algum jeito, a política nacional reaparecia pela porta dos fundos.
E tivemos até propostas
Os três apresentaram propostas. Nenhum pode ser acusado de passar a noite inteiramente vazio de conteúdo. Moro mostrou uma agenda ligada a segurança, gestão e combate à corrupção. Sandro apresentou infraestrutura, saúde, educação e continuidade administrativa. Requião trouxe serviços públicos, educação, funcionalismo, segurança e sua conhecida crítica às privatizações. O problema não foi a inexistência de ideias. Foi o espaço que elas tiveram de dividir com a necessidade quase compulsiva de acertar contas.
E foi justamente aí que o comportamento falou mais alto do que os programas.
Moro mostrou iniciativa, capacidade de confronto e segurança nos temas que domina, mas também deixou evidente como pode ser arrastado para a defensiva quando sua própria trajetória entra na pauta. Sandro mostrou energia, conhecimento da administração estadual e rapidez na resposta, mas precisa escolher melhor quais brigas comprar e transformar continuidade em projeto, não apenas em inventário. Requião mostrou repertório, experiência e uma ironia que lhe rende bons momentos, mas corre o risco de transformar coerência em repetição e presença em previsibilidade.
Não apareceu nenhum santo, nenhum desastre completo e também nenhum candidato muito diferente daquele que a campanha já vinha mostrando. O debate fez algo mais útil. Tirou os três da propaganda, onde todo mundo escolhe o melhor enquadramento, o melhor texto e o melhor sorriso, e deixou cada um diante daquilo que, ao vivo, não tem muito como esconder: o próprio temperamento.
