A matemática do poder: como margens milimétricas definiram o destino de Silva e Luna e de Ricardinho

Silva e Luna, prefeito de Foz do Iguaçu. Foto: Divulgação/Prefeitura de Foz de Iguaçu
Silva e Luna, prefeito de Foz do Iguaçu. Foto: Divulgação/Prefeitura de Foz de Iguaçu

Se Malba Tahan tivesse conhecido o general Silva e Luna, talvez encontrasse inspiração para uma versão eleitoral de O Homem que Calculava. Em 2024, o prefeito de Foz do Iguaçu venceu com 50,14% dos votos válidos, escapando do segundo turno por uma diferença que exigiu atenção às casas decimais.

Dois anos depois, apoiou Sergio Moro desde o início e viu seu candidato conquistar o governo do Paraná com 50,10%, novamente por uma margem que mal cabe na calculadora. A habilidade matemática, entretanto, parece não ter alcançado o vice-prefeito Ricardinho, que preferiu apoiar Sandro Alex e ainda tentou, sem sucesso, uma cadeira na Assembleia.

Silva e Luna pode até reivindicar parentesco intelectual com Beremiz Samir, o célebre calculista de Malba Tahan. Já Ricardinho talvez esteja procurando onde foi parar o resto da conta.

BAKRI ENTROU NA DISPUTA SEM PEDIR LICENÇA

Hussein Bakri resolveu colocar seu nome na disputa pela presidência da Assembleia e não parece disposto a fazer apenas figuração. Foram oito anos como líder do governo Ratinho Junior, tempo suficiente para conhecer os deputados, as bancadas, os humores e, principalmente, os caminhos que levam aos votos. Reeleito com 99.700 votos, Bakri quer saber quanto vale, na nova configuração da Casa, o capital político acumulado durante dois mandatos.

O detalhe interessante é que pertence ao grupo que perdeu o governo, mas não parece disposto a entregar também o comando da Assembleia. Moro terá de descobrir que nem todo mundo que perdeu a eleição ficou sem cartas na mão.

DO CARMO VAI MUDAR DE LADO?

Do Carmo preferiu manter a lealdade a Ratinho Junior, mesmo quando seu partido, o Podemos, decidiu apoiar Sergio Moro. Fez uma escolha política e agora terá de decidir o que fazer com ela. Permanecerá no Podemos, sustentando uma posição diferente da adotada pela legenda? Procurará outra casa partidária? Ou acabará engrossando a base do governador eleito?

O deputado, reeleito com 83.445 votos, já sinalizou disposição para manter uma relação institucional com Moro, o que não significa necessariamente adesão política.

Na Assembleia, onde cada voto pode fazer diferença na eleição da Mesa, Do Carmo tem algumas portas diante de si. A curiosidade é saber qual delas pretende abrir.

BETO PRETO SAIU MAIOR

Beto Preto conseguiu uma façanha que nem todos os integrantes do governo Ratinho Junior podem comemorar: saiu da eleição com mais de 177 mil votos para deputado federal, apesar da derrota do candidato governista ao Palácio Iguaçu. Foram anos à frente da Saúde, uma área em que as reclamações nunca desaparecem, mas na qual conseguiu associar seu nome a entregas, investimentos e à ampliação de serviços. A votação sugere que soube transformar essa presença administrativa em reconhecimento eleitoral.

E aí aparece uma questão interessante para o PSD: enquanto alguns nomes do grupo precisarão reconstruir espaço, Beto Preto chega a 2027 com mandato, votação expressiva e um patrimônio político que já não depende exclusivamente do governador que o nomeou.

EDUARDO JÁ NÃO É O MESMO EDUARDINHO

Rafael Greca gosta de chamá-lo de Eduardinho, mas Eduardo Pimentel começa a mostrar que o diminutivo já não combina tanto com o tamanho político que vem adquirindo. O prefeito de Curitiba deixou de ser apenas o sucessor escolhido pelo antigo chefe e vai construindo uma identidade própria, com visibilidade, capacidade de articulação e um mandato que lhe permite conversar com diferentes forças políticas.

Não significa que tenha rompido com Greca, muito menos que pretenda fazê-lo, mas há uma diferença considerável entre ser apresentado como herdeiro e começar a ser tratado como liderança. Eduardo parece estar descobrindo essa diferença. E Greca, que sempre gostou de personagens grandiosos, talvez precise se acostumar com a ideia de que seu antigo Eduardinho cresceu.

A HERANÇA DOS ERROS

Murilo Hidalgo, dono da Paraná Pesquisas, já virou presença frequente nas mesas de análise política dos grandes veículos de comunicação, onde comenta eleições com a desenvoltura de quem passou décadas tentando entender o que o eleitor fará quando chegar à urna. Fora dos estúdios, costuma aparecer nas redes sociais acompanhado de um cachorrinho branco carinhosamente chamado Herdeiro. E aí está uma solução doméstica que talvez mereça ser adotada pelo mercado de pesquisas: quando o instituto acerta, os méritos ficam com Murilo; quando erra, a responsabilidade passa ao Herdeiro.

O cachorro, naturalmente, não foi consultado sobre essa divisão de tarefas, mas já deve ter percebido que, nessa família, os elogios ficam com o fundador e as cobranças podem chegar antes da ração.

DELTAN TEM 2,9 MILHÕES DE VOTOS. FALTAM SETE

Deltan Dallagnol recebeu 2.904.594 votos para o Senado, mas a eleição ainda não resolveu inteiramente sua situação. Nesta quinta-feira, o Tribunal Superior Eleitoral tem na pauta o recurso contra o registro de sua candidatura, relatado pelo ministro Floriano de Azevedo Marques. O TRE do Paraná havia autorizado sua participação por quatro votos a três, e agora a discussão chega aos sete integrantes do plenário do TSE. A ironia é que, depois de conquistar milhões de eleitores, Deltan depende de uma votação com um eleitorado consideravelmente menor, embora submetida a critérios jurídicos, não eleitorais.

Se o registro for definitivamente negado, seus votos poderão ser anulados e a vaga exigirá uma solução da Justiça Eleitoral, com possibilidade de nova eleição. Alexandre Curi, terceiro colocado, não herdaria automaticamente o mandato. A urna falou no domingo. A Justiça ainda tem a palavra.

O ÔNIBUS TEM PREÇO. E A CONTA?

O Tribunal de Contas do Paraná apontou problemas de transparência nas regras da futura concessão do transporte coletivo de Curitiba, especialmente nos indicadores de desempenho e nos mecanismos de reajuste e revisão das tarifas. O leilão está previsto para novembro, e o assunto interessa a centenas de milhares de passageiros que dependem diariamente dos ônibus da capital.

É curioso como contratos desse tamanho conseguem reunir uma quantidade impressionante de fórmulas, índices e expressões técnicas, enquanto o passageiro continua fazendo uma pergunta bastante simples: quanto vai pagar e pelo quê? Antes de discutir o preço da passagem, talvez fosse conveniente garantir que todo mundo consiga entender a conta.

FOZ JÁ ESTÁ FAZENDO AS CONTAS DO FERIADO

Foz do Iguaçu chega ao feriado prolongado de Nossa Senhora Aparecida com expectativa de 84% de ocupação hoteleira, segundo levantamento do Sindhotéis. Nos estabelecimentos de três estrelas, as reservas já apontam índice de 87%. Para uma cidade cuja economia depende fortemente da circulação de visitantes, o movimento representa mais do que quartos ocupados. Significa restaurantes, comércio, atrativos, transporte e empregos temporários trabalhando em ritmo acelerado.

O turismo tem essa característica que às vezes escapa às discussões econômicas: quando o visitante chega, não movimenta apenas o hotel em que dorme. E, em Foz, até quem não vive diretamente do turismo costuma descobrir rapidamente quando a cidade está cheia.

O PARANÁ VAI À CHINA DE FRAQUE

A Orquestra Sinfônica do Paraná se apresenta nesta quinta-feira no Teatro Guaíra com o programa que levará ao China Shanghai International Arts Festival, onde fará dois concertos neste mês. A apresentação também homenageia o maestro Roberto Tibiriçá, morto no último sábado, aos 72 anos. Em tempos em que a China costuma aparecer no noticiário paranaense associada a tarifas, exportações, carne bovina e negociações comerciais, é interessante vê-la entrar na pauta por outro caminho. O Paraná também exporta cultura, talento e música. E, nesse caso, felizmente, ninguém precisa discutir a cotação da arroba antes de começar o concerto.

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