JANTAR DE FLÁVIO OU BEIJA-MÃO A MORO?
O encontro desta noite no Madalosso é convocado para mobilizar prefeitos e lideranças em favor de Flávio Bolsonaro, mas terá inevitavelmente uma segunda leitura. Sergio Moro estará diante de centenas de prefeitos poucos dias depois de ser eleito governador, inclusive muitos que trabalharam contra ele no primeiro turno. O convite é presidencial, mas o salão também servirá para os primeiros cumprimentos, conversas e aproximações com quem comandará o Palácio Iguaçu.
A pergunta que tempera a nota é simples: quem vai ao Madalosso por Flávio e quem aproveita para começar a conversar com Moro?
PIMENTEL NÃO ESPEROU O GARÇOM
Eduardo Pimentel entrou diretamente na mobilização e convocou prefeitos e lideranças para o encontro. É mais uma demonstração de sua capacidade de articulação depois de uma eleição em que esteve no campo adversário de Moro. O prefeito de Curitiba parece ter compreendido rapidamente que uma coisa é campanha e outra é governar depois dela.
Enquanto alguns ainda digerem o resultado das urnas, Pimentel já ajuda a arrumar a mesa da próxima conversa política.
PROCURAM UMA CRISE NA MALA DE RATINHO
Ratinho Junior não estará no jantar porque está fora do país, numa viagem familiar marcada anteriormente. A ausência já começa a ser usada para questionar o entusiasmo de seu apoio a Flávio Bolsonaro, embora Ratinho tenha conversado com o candidato e tornado pública sua posição. Até agora não apareceu fato que indique recuo.
Transformar uma viagem programada em rebelião política exige procurar fumaça onde não há incêndio e, de quebra, aparecer carregando o galão de gasolina.
TARCÍSIO FEZ A PONTE. E AGORA?
Tarcísio de Freitas foi o grande fiador da aproximação entre Flávio Bolsonaro e Ratinho Junior. A partir daí começaram as especulações sobre o futuro do governador paranaense, de um eventual ministério à direção-geral brasileira de Itaipu. Não existe convite confirmado nem cadeira reservada, mas a conversa mostra que Ratinho pretende continuar circulando no tabuleiro nacional depois de deixar o Palácio Iguaçu.
Tarcísio construiu a ponte. Agora começou a disputa para descobrir o que existe do outro lado.
KASSAB NÃO QUEIMA PONTES. COLECIONA
Falta colocar Gilberto Kassab nessa equação. O presidente do PSD saiu do primeiro turno menor do que pretendia, mas continua comandando uma legenda com governadores e representação importante no Congresso. Ratinho fez seu movimento em direção a Flávio, outros integrantes do partido farão os seus, enquanto Kassab preserva interlocução inclusive com Lula.
É uma habilidade antiga: ele dificilmente fecha uma porta antes de descobrir quem ficará com a chave da próxima.
A BANCADA DOS EX-PREFEITOS
Cinco ex-prefeitos chegam ou retornam à Assembleia: Ulisses Maia (PSD), de Maringá; Paulo Mac Donald (PP), de Foz do Iguaçu; Gerson Colodel (MDB), de Almirante Tamandaré; Beto Vizzotto (PT), de Paraíso do Norte; e Cesar Silvestri (PP), de Guarapuava. Eles discutem a criação de uma frente parlamentar que poderá reunir também deputados que já passaram por prefeituras, como Hussein Bakri, Moacyr Fadel e Ademar Traiano, além de parlamentares com experiência como vice-prefeitos. A proposta é usar a experiência de quem conhece a administração municipal por dentro para construir padrões de gestão, compras e contratações, capacitar prefeitos e equipes e encontrar, dentro da legalidade, maneiras de reduzir burocracia, custos e desperdícios.
Quem já administrou uma cidade conhece bem a diferença entre controlar o dinheiro público e amarrá-lo numa cadeira.
RATINHO ESTÁ FORA DESSA URNA
Se o processo de Deltan Dallagnol terminar produzindo uma eleição suplementar para o Senado, um nome pode ser retirado das especulações: Ratinho Junior não será candidato. A informação é segura. Evidentemente, antes de escolher candidatos é preciso que o TSE decida o caso e que o resultado jurídico efetivamente leve a uma nova eleição. Mas a política tem enorme dificuldade para esperar o capítulo anterior terminar.
Já há gente escalando o elenco de uma eleição que ainda nem existe. Ratinho, pelo menos, não fará teste para o papel.
CURI PODE GUARDAR OS SANTINHOS
Alexandre Curi é uma história diferente. Caso exista uma eleição suplementar para o Senado, poderá voltar ao jogo. Há ainda um componente político: Curi é do Republicanos, partido de Pedro Lupion, nome mencionado nas conversas sobre o Ministério da Agricultura de um eventual governo Flávio Bolsonaro. O alinhamento existe, embora faltem detalhes nada desprezíveis, como Flávio vencer a eleição e a Justiça determinar uma nova disputa no Paraná.
E fica outra pergunta: Cristina Graeml e Gleisi Hoffmann topariam voltar à urna? A eleição nem existe e o camarim já começa a ficar movimentado.
O TSE ENTROU NO GRUPO
A confusão em torno do canal de WhatsApp ligado a André Janones colocou o próprio TSE no centro da discussão. Uma decisão determinou a suspensão, outra restabeleceu o canal e a área técnica acrescentou novos elementos ao caso. Mais interessante do que transformar a nota numa disputa entre ministros é discutir a previsibilidade das regras numa eleição em que as campanhas brigam por cada postagem, vídeo e mensagem. Se o WhatsApp já é território suficientemente confuso para o eleitor, o tribunal não precisa colaborar. Até porque decisão judicial não vem acompanhada de figurinha explicativa.
A PESQUISA QUE NÃO ACABOU COM A ELEIÇÃO
A BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira coloca Flávio Bolsonaro com 52% e Lula com 48% nos votos válidos. Nos votos totais, são 48% a 46%, diferença dentro da margem de erro informada pelo levantamento. A pesquisa mostra uma disputa apertada e ajuda a entender por que as duas campanhas estão atrás de quem não votou em nenhum dos finalistas no primeiro turno. Os candidatos parecem ter consolidado boa parte dos próprios eleitores.
Agora precisam seduzir os dos outros. Pesquisa mede o momento, mas sempre aparece alguém disposto a mandar confeccionar a faixa presidencial antes da apuração.
NÃO ENTERREM A JARARACA ANTES DA APURAÇÃO
A velocidade com que começaram a circular ministros, dirigentes de estatais e ocupantes de gabinetes de um eventual governo Flávio Bolsonaro recomenda recuperar uma velha metáfora de Lula. Em 2016, no auge da Lava Jato, ele disse que haviam atingido o rabo da jararaca, não sua cabeça. Dez anos depois, a imagem serve como advertência aos apressados: Lula continua disputando a Presidência e a eleição ainda precisa acontecer. Articular um futuro governo faz parte da política. Distribuir as chaves antes de receber o imóvel é outra história.
Quem estiver montando ministério pode continuar fazendo a lista, mas talvez seja cedo para encomendar a placa da porta. A jararaca ainda está na urna.
