Há uma eleição dentro do celular e que o Google não resolve

Eleições municipais de 2024 em Curitiba.
Eleições municipais de 2024 em Curitiba. Foto: Átila Alberti / arquivo Tribuna do Paraná.

A quatro dias da votação, há uma eleição para deputado acontecendo dentro do celular do eleitor. Ela não tem urna, não tem pesquisa registrada e muito menos permite saber quem será eleito, mas deixa rastros interessantes sobre quem conseguiu vencer a primeira e talvez a mais cruel barreira de uma eleição proporcional: ser percebido no meio de uma multidão de candidatos convencidos de que estão sendo vistos. 

No Paraná são 426 candidatos a deputado federal e 617 a estadual, segundo os dados mais recentes do TRE-PR. É gente demais disputando espaço na memória de um eleitor que passou boa parte da campanha sendo bombardeado pela corrida ao governo, pelas duas vagas ao Senado e pela eleição presidencial. Deputado costuma chegar depois. Para muita gente, chega agora, quando faltam quatro dias e é preciso descobrir não apenas em quem votar, mas também aqueles quatro ou cinco números que domingo não aceitarão improvisação. 

É justamente nessa hora que o mundo digital ganha uma importância diferente. Os sinais de busca e circulação mostram candidaturas que conseguiram provocar algum tipo de reação. Entre os federais, Jeffrey Chiquini, Sargento Fahur, Guilherme Kilter, Ana Júlia, Renato Freitas, Rosangela Moro e Delegado Francischini estão entre aqueles que despertam atenção relevante nesse ambiente. Na disputa estadual, Jessicão, Paulo Melo, Jasson Goulart, Ana Moro, Herivelto Oliveira, Delegada Tathiana Guzella, Flávia Francischini, Maria Victoria e Goura também aparecem com força nesse movimento. 

É uma informação interessante, desde que ninguém tenha a tentação de promovê-la a pesquisa eleitoral. Busca não é intenção de voto, seguidor não é eleitor e curtida, definitivamente, não é cédula. Alguém pode procurar um candidato porque gostou dele, porque detestou, porque recebeu um vídeo, porque viu uma confusão ou simplesmente porque ouviu aquele nome pela primeira vez. O algoritmo registra curiosidade sem perguntar a razão. A urna é mais antipática: quer número e voto. 

Há outra distorção importante. A internet nunca foi uma reprodução perfeita do eleitorado, embora às vezes goste de se comportar como se fosse. Cada portal, plataforma e rede reúne públicos com características próprias. Num espaço com audiência mais identificada com a direita, candidatos desse campo naturalmente tendem a despertar maior procura. Em outros ambientes, a esquerda pode parecer gigantesca. Quem transformar qualquer desses recortes num retrato do Paraná corre o risco de descobrir no domingo que estava medindo a arquibancada e imaginando que era o estádio inteiro. 

O contraponto começa a aparecer quando olhamos para candidatos cuja força eleitoral depende menos da curiosidade digital. Beto Preto carrega mandato, a exposição acumulada pela passagem pela Secretaria da Saúde e relações políticas espalhadas pelo Estado. Luciano Ducci tem mandato, foi prefeito de Curitiba e possui um nome que não precisa ser descoberto quatro dias antes da eleição. Ricardo Barros, Zeca Dirceu, Leandre e Aliel Machado, cada qual com sua geografia e seu tamanho, também carregam estruturas políticas e eleitorais que não cabem numa barra de busca e tampouco desaparecem porque alguém teve menos cliques. 

Aí o mundo físico entra na conversa e começa a estragar algumas certezas digitais. Prefeitos, vereadores, lideranças locais, igrejas, sindicatos, associações, categorias profissionais e redes comunitárias continuam trabalhando enquanto o algoritmo trabalha. Há candidato fazendo pouco barulho no Instagram e tendo gente pedindo voto por ele em dezenas de municípios. E há quem acumule visualizações aos milhões para talvez descobrir no domingo uma verdade pouco agradável: audiência é uma unidade de medida, voto é outra. 

Nem a própria votação nominal encerra a história. Para deputado, o desempenho do partido ou da federação participa da definição das cadeiras. O candidato disputa contra os adversários de fora, depende dos votos produzidos pela própria chapa e ainda precisa olhar para o companheiro de partido que aparece sorrindo ao seu lado. Na eleição proporcional, até a fotografia de família tem cotovelo. 

Por isso, converter popularidade digital diretamente numa relação de prováveis eleitos seria acrescentar certeza onde existe apenas um sinal. Mas seria igualmente tolo desprezar esse sinal. Para um candidato pouco conhecido, fazer alguém parar, digitar seu nome e procurar saber quem ele é representa uma pequena vitória numa campanha congestionada. Atenção não garante voto. A absoluta falta dela também nunca foi uma estratégia eleitoral particularmente brilhante. 

Há ainda uma ironia deliciosa nessa eleição digital. O celular virou uma das principais ferramentas para descobrir candidato, conferir número, assistir a vídeo, receber indicação e mudar de ideia, mas não poderá acompanhar o eleitor até a cabine. A Justiça Eleitoral recomenda levar os números anotados numa colinha física porque o telefone não entra no local de votação. Depois de tanta inteligência artificial, algoritmo, impulsionamento, segmentação e estratégia digital, a campanha termina num pedaço de papel dobrado no bolso. 

Até lá, os dois mundos continuarão se misturando. O eleitor pesquisa no Google, recebe vídeo pelo WhatsApp, vê candidato no Instagram, pergunta ao amigo, escuta o vereador, conversa em casa, lembra de um ex-prefeito, atende ao pedido de uma liderança da cidade ou simplesmente recupera um nome que conhecia havia anos. A tecnologia acrescentou caminhos à decisão. Não revogou os antigos. 

Na noite de domingo será possível comparar os sinais. Provavelmente haverá candidatos que fizeram muito barulho digital e confirmarão isso nas urnas. Outros mostrarão uma força que a internet não conseguiu enxergar. E certamente haverá quem descubra, da maneira mais cara possível, que viralizar e ser votado nunca foram sinônimos. 

A internet já consegue mostrar quem aparece, quem circula, quem provoca e quem desperta curiosidade. O que nem Google, Instagram, impulsionamento ou exército de seguidores conseguiram resolver é a operação que interessa depois das cinco da tarde de domingo: transformar procura em voto.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias do estado do Paraná!
Seguir no Google