A BUROCRACIA NÃO TEM PARTIDO?
A Secretaria das Cidades cancelou 445 aberturas de prioridade e suspendeu outras 304, envolvendo cerca de R$ 1,3 bilhão em projetos municipais. A justificativa é técnica: documentação incompleta e prazos vencidos. Até aí, tudo dentro das regras. Mas a decisão, tomada logo depois de uma eleição que dividiu prefeitos entre diferentes candidaturas, desperta uma curiosidade inevitável. Será que todos receberam o mesmo tratamento? As pendências eram impossíveis de corrigir ou alguns municípios poderiam ter ganhado mais tempo? Não se trata de convênios assinados, mas de investimentos que muitas prefeituras já incluíam em seus planos. Seria interessante conhecer a lista dos atingidos e confrontá-la com o mapa eleitoral.
A papelada pode não ter preferência partidária. Resta saber se a régua usada para examiná-la também não tem.
A URNA TOCOU O DESPERTADOR
Lula parece ter acordado para o segundo turno. Na entrevista a Renata Lo Prete, na Globo, apareceu mais animado, assumiu a responsabilidade pelo resultado insuficiente nas urnas e admitiu rever até posições históricas, como a maioridade penal em crimes hediondos. Renata perguntou com firmeza, sem transformar a conversa em confronto pessoal. Mas disposição não elimina contradições. Lula disse que a explicação de Andrei Rodrigues sobre sua presença num evento ligado a Daniel Vorcaro não o convenceu, mas o diretor continua no comando da Polícia Federal. Falou duro sobre a crise do Supremo, citou ministros e condenou práticas de enriquecimento, porém demonstrou cautela bem maior quando a pergunta chegou a Flávio Dino.
A urna parece ter feito a ficha cair. Algumas respostas, entretanto, ainda estão esperando o despertador.
OS DOIS NO MESMO PALÁCIO
Ratinho Junior e Sergio Moro finalmente se encontraram no Palácio Iguaçu, depois de uma campanha em que trocaram críticas nada amistosas. A reunião de quinta-feira, com a participação de Darci Piana, abriu formalmente os trabalhos de transição, com oferta de instalações, informações administrativas e um decreto para organizar a transferência de responsabilidades. Ratinho demonstrou disposição para colaborar, e Moro agradeceu. Não significa reconciliação política, nem precisa significar. O Paraná tem um governador até dezembro e outro a partir de janeiro, e ambos sabem que a administração pública não pode ficar esperando que os políticos voltem a gostar uns dos outros.
Aliás, nem precisam gostar. Basta que conversem, respeitem as instituições e se lembrem de que o Palácio Iguaçu não pertence a nenhum dos dois.
A MATEMÁTICA NÃO TIRA FOLGA
A Federação da Agricultura do Paraná estima em R$ 4,1 bilhões o impacto anual da redução da jornada no agronegócio, com necessidade equivalente a 107 mil contratações. Os números impressionam, mas há um detalhe que não pode passar despercebido: o estudo considera uma jornada de 36 horas, enquanto a PEC aprovada pelo Senado estabelece 40. A diferença não elimina os custos de adaptação, especialmente em atividades que não param aos domingos ou feriados, mas impede aplicar diretamente aquela conta ao texto aprovado.
O trabalhador quer descansar mais, o produtor precisa reorganizar suas equipes e o Congresso ainda terá de explicar como a mudança funcionará na prática. Só convém que todos façam as contas usando a mesma tabuada.
A CONTA CHEGA. A LUZ, NEM SEMPRE.
Em Reserva, nos Campos Gerais, o Ministério Público levou a Copel à Justiça por interrupções recorrentes no fornecimento de energia e pediu R$ 198,8 milhões em indenização coletiva. Segundo a Promotoria, houve comunidades rurais que chegaram a ficar sete dias sem eletricidade, com prejuízos à produção de leite, perda de alimentos, dificuldades no abastecimento de água e até comprometimento da conservação de vacinas. O valor pedido não é uma condenação, mas dá a dimensão do problema apontado. Para quem vive e produz no interior, energia elétrica não é luxo nem favor. É serviço essencial, pago pelo consumidor.
E seria interessante que a regularidade do fornecimento acompanhasse a eficiência da cobrança. Porque a conta, pelo visto, não costuma sofrer interrupções.
CINCO BILHÕES NAS LETRAS MIÚDAS
O Tribunal de Contas encontrou problemas em cláusulas de uma licitação de R$ 5,2 bilhões do DER para conservação de rodovias estaduais. Entre os pontos questionados estão exigências contratuais e procedimentos para afastamento de empresas suspeitas de irregularidades. O Tribunal preservou os contratos, já em execução, por entender que as falhas não comprometeram a competitividade, mas recomendou correções para futuras licitações. A discussão ainda tem recurso pendente. Não significa que as obras sejam irregulares, mas que até um edital tecnicamente robusto pode precisar de ajustes.
E, convenhamos, quando estão em jogo cinco bilhões de reais, não custa nada prestar bastante atenção àquelas letrinhas que quase ninguém tem paciência de ler.
O REMÉDIO PASSOU, O VETO NÃO
A Câmara de Maringá derrubou, por 19 votos, o veto parcial do prefeito Silvio Barros ao projeto que permite aceitar receitas de médicos particulares para fornecimento de medicamentos pela rede pública. A divergência envolvia a substituição de remédios prescritos pelo nome comercial por equivalentes disponíveis no SUS. A prefeitura apontou riscos técnicos e sanitários, enquanto os vereadores resolveram manter a previsão. É uma discussão que exige cuidado, porque facilitar o acesso não significa dispensar protocolos de segurança. Mas existe também uma realidade bastante conhecida: muita gente consegue pagar uma consulta particular e depois descobre que não tem dinheiro para comprar o tratamento.
Entre o parecer técnico e a decisão política, há um paciente esperando. E ele, naturalmente, está mais interessado no remédio do que no resultado da votação.
EM LONDRINA, A PLANILHA GANHOU PLATEIA
A discussão do orçamento de Londrina para 2027 lotou as galerias da Câmara Municipal. Servidores foram cobrar reposição inflacionária, questionar a redução de horas extras e pedir garantias sobre o décimo terceiro salário. A proposta prevê quase R$ 4 bilhões para o próximo ano, mas não assegura expressamente o reajuste. A prefeitura argumenta que precisa controlar despesas para preservar pagamentos e recuperar o equilíbrio financeiro. É uma situação delicada para Tiago Amaral, que enfrenta um déficit projetado de R$ 205 milhões. O prefeito precisa ajustar as contas, os servidores querem preservar seus rendimentos e a população espera que os serviços continuem funcionando.
Todo mundo defende responsabilidade fiscal, principalmente enquanto ela não chega ao próprio contracheque. O problema começa quando a planilha pede sacrifícios e ninguém quer aparecer na coluna das despesas.
A MAIORIDADE BAGUNÇOU O ACORDO
Depois de acelerar a votação do fim da escala 6×1, Davi Alcolumbre resolveu tirar a PEC da Segurança Pública da pauta do Senado. O motivo foi a divergência sobre a redução da maioridade penal. Rogério Marinho apresentou proposta para fixá-la em 16 anos, chegando a 14 nos crimes mais graves. Já Camilo Santana, do PT, defende a redução para 16 anos apenas nos crimes hediondos, preservando a regra geral de 18. A discussão atravessou as fronteiras partidárias e provocou desconforto até entre governistas. Alcolumbre preferiu esperar por um acordo. Na escala 6×1, conseguiu reunir 75 votos favoráveis.
Na maioridade penal, descobriu que a idade pode ser uma questão de números, mas o problema é fazer os adultos concordarem.
O MEI FEZ O CONGRESSO CONCORDAR
Câmara e Senado aprovaram, com votações expressivas, a ampliação do limite anual de faturamento dos microempreendedores individuais, que passará dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, caso o texto seja sancionado. A proposta também permite contratar até dois empregados e prevê perdão de determinadas dívidas com a União, mediante condições. No Senado, foram 78 votos favoráveis e nenhum contrário. Uma raridade em plena campanha presidencial: governo e oposição conseguiram concordar sobre alguma coisa. Agora, certamente, começarão a disputar quem merece os agradecimentos.
O pequeno empreendedor, que já tem trabalho suficiente para manter o negócio funcionando, provavelmente ficará mais interessado na entrada em vigor das novas regras do que na briga pela paternidade da ideia.
A CHUVA MUDOU O TRAÇADO DAS ESTRADAS
O Paraná chegou à quinta-feira com quatro rodovias estaduais totalmente interditadas pelas chuvas e outros quatro trechos funcionando em sistema de pare e siga. Deslizamentos, rompimento de bueiros e danos em pontes atingem diferentes regiões, incluindo ligações importantes para moradores e produtores rurais. Na PR-092, entre Rio Branco do Sul e Cerro Azul, e na PR-592, em Nova Prata do Iguaçu, os bloqueios exigem caminhos alternativos. O DER trabalha na recuperação, mas os estragos recolocam uma preocupação antiga: conservação, drenagem e capacidade das rodovias de enfrentar chuvas intensas.
Estrada boa é assunto de campanha, inauguração e discurso. Estrada interrompida é assunto de quem precisa chegar ao trabalho, transportar a produção ou simplesmente voltar para casa.
NA FIFA, DESCULPA NÃO ANULA O LANCE
Gianni Infantino pediu desculpas aos dirigentes da Fifa pela condução de um projeto que pretendia abrir negócios comerciais da Copa do Mundo a investidores privados. A proposta, estimada em bilhões de dólares, foi abandonada depois de provocar forte resistência, especialmente entre dirigentes europeus. Ingleses e alemães não ficaram satisfeitos com as explicações e continuam cobrando documentos e transparência. O episódio ganhou importância porque Infantino pretende disputar novamente a presidência da entidade em 2027. No futebol, uma falta mais dura pode terminar em pedido de desculpas, cartão amarelo e bola rolando.
Na Fifa, os dirigentes querem examinar também quem autorizou a jogada, quanto dinheiro estava envolvido e por que ninguém foi consultado. Parece que o VAR administrativo ainda tem algumas imagens para revisar.
