O nome do deputado Delegado Jacovós começou a circular como preferido de Sergio Moro para presidir a Assembleia Legislativa. Pode parecer vantagem, mas, numa eleição em que acordos são fechados e desfeitos até poucas horas antes da votação, despontar como favorito com três meses de antecedência pode ser a maneira mais eficiente de se queimar na largada. Luiz Fernando Guerra e Gugu Bueno também aparecem nas conversas, enquanto o PL de Moro terá apenas 14 dos 54 deputados. O apoio do governador eleito poderá ajudar, mas não substitui os votos.
Nessa disputa, quem chega muito cedo à condição de favorito também oferece aos adversários tempo de sobra para construir uma alternativa.
SE ESSA MODA PEGA…
O escândalo do Ueno Bank produziu um terremoto político no Paraguai. Carlos Carvallo apresentou sua renúncia à presidência do Banco Central e Santiago Peña fez o mesmo em relação à Presidência da República. O Congresso, entretanto, ficou sem quórum para deliberar sobre a saída de Peña, que continua no cargo e foi convocado a apresentar sua defesa nesta sexta-feira, no processo de impeachment em andamento no Senado. Se essa moda atravessa a fronteira, a estrutura do poder brasileiro poderá enfrentar um congestionamento de pedidos de exoneração. O caso Master alcançou governos, parlamentares, integrantes do Judiciário e a própria fiscalização do Banco Central. Evidentemente, suspeitas não equivalem a condenações, mas imagine quantas gavetas poderiam ser esvaziadas se todos os que tivessem responsabilidade comprovada resolvessem seguir o exemplo.
Seria uma verdadeira reforma administrativa, sem necessidade de decreto. Pensando bem, se essa moda pega, talvez seja até uma boa para o Brasil.
O SENADO PRECISA DE MAIS CADEIRAS
Rogério Marinho quer, Tereza Cristina também, Davi Alcolumbre pretende continuar e Arthur Lira observa a confusão, na esperança de que a presidência acabe lhe caindo no colo como presente. O Senado tem 81 integrantes, mas, pelas contas dos apoiadores mais entusiasmados, cada um dos três primeiros já teria os 41 votos necessários para vencer. Se todos estivessem certos, seriam precisos pelo menos 123 senadores. Até fevereiro, essa matemática terá de voltar aos 81 votantes previstos na Constituição.
Há, porém, um detalhe que costuma fazer toda a diferença nessas disputas: as juras de fidelidade são feitas publicamente, às vezes até diante das câmeras. Já o voto é secreto. E, dentro da cabine, promessa não tem testemunha.
PRESENTE COM BOLETO
Os vereadores de Ponta Grossa receberam uma herança nada agradável da legislatura anterior. Em dezembro de 2024, seus antecessores aprovaram um aumento de 73% para os parlamentares que assumiriam em janeiro, elevando os subsídios para R$ 18.119,68, com direito a um adicional para o presidente da Câmara. A Justiça resolveu agora a questão em primeira instância: anulou as despesas decorrentes do reajuste e determinou a devolução dos valores recebidos indevidamente em períodos determinados. Ainda cabe recurso, mas a ironia já está servida.
A legislatura passada preparou o presente, a atual abriu o pacote e a Justiça apareceu com a cobrança. Em Ponta Grossa, o aumento salarial acabou ganhando uma modalidade pouco apreciada pelos políticos: a marcha à ré.
O RASTRO DOS 80 MILHÕES
Os vereadores de Curitiba destinaram aproximadamente R$ 80 milhões em cotas de emendas parlamentares em 2026. A partir do próximo ano, os repasses a instituições deverão seguir novas exigências de rastreabilidade e fiscalização pelo Tribunal de Contas do Paraná. O interessante é que essas emendas não são impositivas, embora o pagamento costume fazer parte da rotina política entre Câmara e Prefeitura. O anúncio dos valores não esclareceu quanto foi efetivamente desembolsado. A novidade promete tornar mais visível o caminho entre a indicação parlamentar e o destino do dinheiro.
Para os vereadores, acompanhar a própria emenda sempre foi uma prioridade. Agora será preciso mostrar também por onde ela andou depois que saiu do gabinete.
TRAIÇÃO COM DATA MARCADA
O presidente da Câmara de Cascavel, Tiago Almeida, ainda está digerindo as traições que diz ter sofrido na disputa pela Mesa Diretora, mas já colocou seu nome à disposição para disputar a prefeitura em 2028. Fez questão de reconhecer que Renato Silva tem prioridade dentro do grupo político, o que deixa a manifestação ainda mais interessante. Afinal, a eleição está distante, o prefeito pode disputar a reeleição e o presidente da Câmara já apresenta suas credenciais para a sucessão.
Na política, declarar lealdade ao titular enquanto se oferece como alternativa exige uma habilidade especial. Principalmente quando a conversa começa justamente com reclamações sobre a fidelidade dos aliados.
A CONTA DO CARIMBO
A Assembleia concluiu a votação do projeto que muda a cobrança dos cartórios paranaenses, depois de uma negociação que mobilizou entidades empresariais, deputados e representantes do setor. A versão final reduz determinadas tarifas em 10%, mas também estabelece correção anual pela inflação e um adicional de 5% sobre os emolumentos, destinado à assistência jurídica. A proposta foi aprovada por 34 votos favoráveis, sete contrários e quatro abstenções. O setor produtivo conseguiu modificar parte dos aumentos inicialmente previstos.
Agora, falta descobrir quem efetivamente ganhou com a nova matemática. O contribuinte terá a resposta quando precisar abrir a carteira diante do balcão.
UM DISTINTIVO E UMA CONTA
O prefeito Tiago Amaral quer transformar a Guarda Municipal de Londrina em Polícia Municipal, aproveitando a abertura criada pela PEC da Segurança Pública. A proposta tem apelo popular, mas chega quando a prefeitura enfrenta dificuldades financeiras e tenta administrar um déficit projetado de R$ 205 milhões. A Guarda já é armada e participa de ações de combate ao crime, o que torna indispensável explicar o que mudará efetivamente com a nova estrutura. A pergunta não é apenas quanto custará trocar o distintivo, mas quem pagará pela ampliação das atribuições.
Afinal, mudar a denominação é relativamente simples. Fazer a criminalidade respeitar o novo nome será bem mais complicado.
A CHUVA NÃO MARCA AUDIÊNCIA
Depois dos estragos registrados em outras regiões, a chuva atingiu com força o centro do Paraná. Em Pitanga, o volume chegou a 150 milímetros em um único dia, provocando transbordamentos, alagamentos e famílias fora de casa. Goioxim e outros municípios também registraram prejuízos. A sucessão de temporais evidencia um desafio que não cabe apenas nos decretos de emergência. Prefeitos precisam responder aos danos imediatos e, ao mesmo tempo, explicar como pretendem reduzir a vulnerabilidade das cidades. Os anúncios de recursos são importantes, mas a recuperação depende da execução.
A natureza não segue calendário político. E tampouco espera que a burocracia encontre uma data conveniente para começar.
MESSIAS QUER RESSUSCITAR
Lula voltou a considerar a indicação de Jorge Messias para o Supremo, apesar da derrota sofrida em abril, quando o Senado rejeitou seu nome por 42 votos a 34. O presidente acredita que a nova conjuntura política poderá abrir espaço para outra tentativa, embora a reapresentação só possa ser votada numa nova sessão legislativa. O detalhe é que o Senado de 2027 terá uma bancada do PL mais numerosa, enquanto antigos adversários da indicação continuam influentes. A insistência poderá transformar a escolha de um ministro numa disputa de força entre os poderes.
O nome é Messias, mas a ressurreição política dependerá de votos. E, no Senado, milagre também precisa de maioria.
MAIS UM MINISTÉRIO, MENOS UMA DESCULPA
Lula anunciou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública por medida provisória, depois da aprovação da PEC que reorganiza a atuação dos governos no combate ao crime. A nova pasta atende a uma promessa da campanha eleitoral, mas também transfere ao próprio presidente uma cobrança ainda mais direta pelos resultados. O governo precisará negociar competências, recursos e articulação com estados e municípios, enquanto começa a disputa pelo comando de uma área de grande exposição política. Criar um ministério é uma decisão administrativa. Reduzir a violência exige muito mais.
Com a nova pasta, Lula terá outro ministro para cobrar, mas também menos espaço para explicar por que os resultados não chegaram.
QUEM FISCALIZA O FISCAL?
A PEC da Segurança Pública foi aprovada por unanimidade no Senado, mas trouxe um dispositivo que promete alimentar novas disputas institucionais. O Congresso poderá sustar atos normativos do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público que ultrapassem suas competências em matérias de segurança e justiça criminal. Integrantes do Judiciário resistiram à novidade, que fortalece o Legislativo na definição dos limites regulatórios dos dois conselhos. A mudança não altera as atribuições disciplinares dessas instituições, mas abre outra frente de disputa entre os poderes.
O Congresso agora terá mais instrumentos para questionar os excessos dos outros. Resta saber como reagirá quando a mesma pergunta for dirigida a ele.
