No sábado, escrevi aqui que o eleitor paranaense talvez precisasse de uma calculadora para acompanhar as pesquisas, porque os números chegavam em sequência e, dependendo do instituto que aparecesse na tela do celular, a eleição podia estar num lugar bastante diferente. No domingo, o eleitor fez aquilo que pesquisa nenhuma consegue fazer por ele, foi votar, e a urna, quando entrou na conversa, resolveu algumas dúvidas, criou outras e deixou uma conta meio indigesta para parte de quem passou meses tentando nos dizer onde estava o eleitor.
No Paraná, curiosamente, o estrago foi bem menor do que aquela barulheira toda da reta final poderia sugerir, porque Sergio Moro terminou com pouco mais de 50% dos votos válidos, Sandro Alex ficou na casa dos 25% e Requião Filho perto dos 23,5%, enquanto alguns levantamentos chegaram razoavelmente perto desse desenho. A Neokemp, por exemplo, dava 48,1% para Moro, 24,7% para Requião e 23,2% para Sandro, trocando segundo e terceiro lugares, é verdade, mas sem apresentar uma eleição que só existia dentro da planilha, enquanto a Ágili também deixou Moro muito próximo do resultado final, embora igualmente tenha enxergado Requião à frente de Sandro.
Outros institutos acertaram uma parte e se perderam em outra, o que ajuda a explicar por que esse balanço precisa ser feito com algum cuidado. A Paraná Pesquisas ficou relativamente perto dos percentuais, mas também colocou Requião na frente de Sandro, enquanto a Real Time Big Data enxergou Sandro em segundo, porém apresentou Moro com 37%, mais de 13 pontos abaixo do resultado das urnas, e a Quaest, que também colocou Sandro na segunda posição, estimou Moro em 43% dos votos válidos. Não dá, portanto, para juntar tudo num saco, sacudir e anunciar que as pesquisas fracassaram no Paraná, porque não fracassaram de maneira uniforme: algumas chegaram perto, outras nem tanto e houve ainda aquelas que enxergaram corretamente uma parte da eleição enquanto deixavam escapar outra.
Essa diferença importa ainda mais quando se olha para outros estados, porque o domingo também mostrou pesquisas funcionando bastante bem. Em São Paulo, por exemplo, o Datafolha chegou à véspera com Tarcísio de Freitas na faixa dos 60% dos votos válidos e a urna entregou algo perto de 63%, enquanto em Minas Gerais os números finais de Cleitinho ficaram muito próximos do que apontavam os últimos levantamentos. Antes, portanto, que alguém comece a cavar uma vala comum para todos os institutos, convém olhar o mapa inteiro, porque não houve pane geral e o problema fica até mais interessante justamente por não ter sido igual em todo lugar.
Na eleição presidencial, porém, a conversa muda de tom porque os principais institutos tradicionais chegaram ao sábado colocando Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro. Datafolha, Quaest, Atlas e CNT/MDA apresentavam números diferentes entre si, cada um com suas margens e seus métodos, mas todos ofereciam ao eleitor a mesma direção geral, enquanto no domingo, com a apuração praticamente encerrada, apareceu outra ordem, com Flávio perto dos 48% e Lula na faixa dos 44%.
Aqui já não estamos falando de um pontinho que escapou pela margem de erro ou de uma vírgula que resolveu passear entre sábado e domingo, porque os grandes institutos, em conjunto, mostraram um candidato na frente e a urna colocou o outro. Houve exceção, como a Palver, que indicou Flávio na liderança, mas a leitura predominante entregue ao país na véspera da votação não foi aquela que apareceu quando os votos foram contados, e é justamente aí que a história começa a ficar menos confortável.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, já havia escrito antes da eleição sobre o peso da abstenção e sobre a dificuldade de transformar intenção declarada em comparecimento efetivo, uma discussão que faz sentido e que, de certa forma, a própria Quaest tentou incorporar ao passar a trabalhar com um modelo de eleitor provável. O problema é que, se a ferramenta foi criada justamente para enxergar quem realmente tinha mais chance de aparecer para votar e ainda assim a ordem dos dois primeiros terminou invertida, fica complicado colocar toda a conta no colo da abstenção quando a apuração termina.
Ela certamente pesou, assim como pesa a decisão de última hora, o voto útil, a mudança de opinião, o eleitor que diz uma coisa e faz outra e até quem simplesmente resolveu não sair de casa, porque eleição é feita de gente, e gente tem essa mania inconveniente de não se comportar exatamente como o modelo gostaria. Ainda assim, há um limite para usar tudo isso como explicação depois do fato consumado, porque, se qualquer diferença puder ser justificada dessa maneira, chegaremos a uma situação curiosa em que pesquisa nenhuma jamais erra, apenas é surpreendida pela realidade.
Pesquisa não é bola de cristal, nunca foi, e cobrar de um instituto o resultado exato da urna seria uma bobagem, mas também não dá para transformar cada erro mais graúdo numa aula posterior de metodologia, como se o eleitor tivesse obrigação de entender por que aquilo que leu no sábado apareceu diferente no domingo. Quando vários institutos importantes apontam na mesma direção e a urna segue outra, cabe perguntar o que aconteceu, onde o modelo perdeu o eleitor e se havia algum movimento que simplesmente não estava sendo captado.
Essa cobrança não desmoraliza pesquisa, muito pelo contrário, porque pesquisa é importante demais para ganhar imunidade justamente quando erra. A credibilidade dos institutos não depende de fingir que todos acertaram, mas da capacidade de explicar por que alguns chegaram muito perto, por que outros ficaram no meio do caminho e por que, na eleição presidencial, boa parte deles parece ter contado ao país uma história que o voto não confirmou.
No sábado, a pergunta era por que pesquisas realizadas quase ao mesmo tempo conseguiam mostrar eleições tão diferentes; no domingo, a urna respondeu uma parte dessa pergunta e deixou a outra, talvez a mais interessante, nas mãos dos próprios institutos.
