QUASE LÁ
Sandro Alex finalmente ganhou uma pesquisa para colocar sobre a mesa sem precisar explicar a distância para Sergio Moro. Na pesquisa da Índice*, Moro aparece com 35,3% e Sandro com 30,6%, diferença de 4,7 pontos e suficiente, pela margem de erro, para o governismo falar em empate técnico. Depois de meses com Ratinho Junior carregando prefeito, partido, palanque e candidato, apareceu um levantamento indicando que alguma coisa começou a andar. Sandro pode comemorar. Só não convém perguntar aos outros institutos antes de cortar o bolo.
O PITBULL DE REQUIÃO
Requião Filho sempre teve temperamento suficiente para dispensar cão de guarda. Nesta campanha, porém, surgiu um Requiãozinho paz e amor, sorridente na televisão, voz calibrada e aparentemente disposto a deixar o fígado descansando até outubro. Alguém precisava assumir o serviço pesado. Michele Caputo Neto parece ter recebido a função e já promete auditoria nas contas do Estado caso a chapa vença. A divisão ficou boa: Requião abraça, Caputo rosna. Resta saber quanto tempo o candidato aguenta ver o vice se divertindo sozinho.
FACHIN NO LEME
Edson Fachin construiu no Paraná a trajetória acadêmica e jurídica que o levou à presidência do Supremo e talvez tenha chegado à cadeira certa no pior momento possível. A crise que envolve Alexandre de Moraes, André Mendonça, Polícia Federal e Procuradoria-Geral deixou de ser uma briga entre ministros e passou a inquietar uma sociedade que assiste atônita ao Judiciário discutindo a si próprio. Treze ex-ministros e ex-presidentes da Corte já cobraram uma resposta institucional. Fachin tem sobriedade, autoridade e pouca vocação para espetáculo, três qualidades em falta no episódio. Pode sair de alguém tão ligado ao Paraná o caminho para tirar o Supremo desse imbróglio. O barco balança. Fachin está com a mão no leme. Agora precisa mostrar que não está ali apenas para segurar o volante.
MENDONÇA SOBE A APOSTA
André Mendonça resolveu aumentar a temperatura de uma crise que já dispensava aquecimento. Determinou nesta manhã o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, além de mandar investigar a produção de relatórios sobre autoridades. A cautelar ainda será submetida à Segunda Turma do Supremo e não significa declaração de culpa. Mas há um ingrediente difícil de ignorar: dias atrás, Andrei havia classificado uma ordem do próprio Mendonça como ilegal e abusiva. Agora, o ministro afasta quem o confrontou. Pode haver fundamento jurídico para tudo isso, e caberá ao colegiado examiná-lo. Institucionalmente, porém, a fotografia é péssima: numa crise em que todos cobram imparcialidade, cada novo personagem parece acabar também sentado à mesa como parte interessada.
O TCE VAI À OBRA
O Tribunal de Contas colocou 56 obras de 35 municípios no roteiro dos auditores. São R$ 1,17 bilhão em escolas, hospitais, pavimentação, terminais e outros empreendimentos que receberão inspeção presencial até o fim do ano. Em plena campanha eleitoral, é um passeio particularmente oportuno. Candidato gosta de obra, prefeito gosta de inauguração e empreiteira costuma apreciar medição. Faltava alguém interessado em conferir se, depois da fotografia, o concreto continua no mesmo lugar.
DEZ ANOS DEPOIS
O prefeito de Ibaiti, Roberto Regazzo, conseguiu finalmente reverter no Tribunal de Contas a desaprovação das contas de 2016. Houve reprovação, multa, recurso, nova análise e, uma década depois, o entendimento de que parte das despesas questionadas tinha interesse público e as demais irregularidades permitiam ressalvas. Bom para Regazzo. Melhor seria se ele tivesse descoberto isso ainda na década em que prestou as contas. Controle público precisa ser rigoroso. Não necessariamente arqueológico.
DELTAN, PÁGINA 5.001
Deltan Dallagnol disputa uma das duas vagas do Paraná no Senado enquanto seu processo de registro já ultrapassa cinco mil páginas e continua encontrando espaço para novos capítulos. O mais recente colocou documentos fiscais de terceiros sob sigilo e levou o episódio ao Ministério Público, sem resolver a questão principal da elegibilidade. O eleitor tem até 4 de outubro para decidir. Os autos não votam e, aparentemente, também não usam calendário eleitoral. Deltan faz campanha na rua enquanto sua candidatura tenta terminar a leitura.
R$ 2,6 MILHÕES DE VOLTA
A Prefeitura de Londrina foi à Justiça atrás de R$ 2,6 milhões depois que a Controladoria apontou suspeitas de direcionamento e manipulação de preços em contratações feitas por uma associação responsável por centros de educação infantil conveniados. A investigação encontrou relações familiares, empresariais e profissionais entre dirigentes e empresas contratadas. Caberá à Justiça definir responsabilidades. A prefeitura, por enquanto, quer o dinheiro de volta. É uma ambição razoável e administrativamente exótica: dinheiro público é especialista em encontrar a saída; para voltar, quase sempre precisa de oficial de Justiça.
QUATRO IDOSOS E UM TRIBUNAL
O TJPR precisou determinar que Ortigueira garanta e pague o acolhimento de quatro idosos em situação de abandono e vulnerabilidade. O município não possui instituição de longa permanência nem serviço equivalente e argumentava que a responsabilidade deveria ser do Estado. Perdeu por unanimidade. A Justiça deu 15 dias para que o atendimento fosse assegurado, sob pena de multa diária. Há políticas públicas que ficam maravilhosas quando descritas para milhares de pessoas. O problema começa quando quatro delas aparecem de verdade precisando de cama, comida e cuidado.
O RELÓGIO DE MARINGÁ
A vereadora Professora Ana Lúcia deveria depor hoje na Comissão Processante da Câmara de Maringá que pode terminar na cassação de seu mandato. Não vai. A defesa apresentou atestado médico de dez dias e pediu nova data depois do dia 13. O direito à saúde e à ampla defesa precisa ser respeitado. O detalhe político é que o relógio da comissão não recebeu atestado: os 90 dias para concluir o processo continuam correndo e terminam no início de outubro. Entre áudios, perícia, defesa, relatório e eventual julgamento, Maringá ganhou uma disputa na qual ninguém precisa correr. Basta conseguir que o calendário corra mais depressa.
A MEMÓRIA ALEMÃ
A extrema-direita da AfD conquistou cerca de 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, seu maior resultado regional e um terremoto político que atravessou as fronteiras alemãs. Não são 44% da Alemanha e a vitória tampouco garante automaticamente o governo do estado. Mas há uma inquietação impossível de separar da história. A Alemanha passou oito décadas transformando a memória do nazismo numa espécie de vacina democrática e agora vê crescer uma força política cujos setores mais radicais questionam justamente o peso dessa memória. Democracias não estão condenadas a repetir o passado. O perigo começa quando lembrar dele passa a incomodar mais do que aquilo que se pretende não repetir.
*Metodologia: O levantamento foi realizado entre os dias 2 e 4 de setembro de 2026, com 1.200 eleitores em todas as regiões do Paraná. A margem de erro máxima estimada é de 2,83 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número PR-01047/2026.”
