Assembleia Legislativa não será um “puxadinho” do Palácio Iguaçu

Assembleia Legislativa do Paraná. Foto: Felipe Rosa / Tribuna do Paraná

A ASSEMBLEIA JAMAIS ADMITIRÁ SER PUXADINHO DO PALÁCIO IGUAÇU

A eleição para governador terminou, mas a disputa pelo comando da Assembleia Legislativa está apenas começando. Hussein Bakri trabalha para chegar à presidência, e o PSD, que elegeu 14 deputados, não pretende entregar de bandeja a direção da Casa. Bakri fala em 34 parlamentares dos partidos ligados ao atual grupo governista, enquanto as conversas de bastidores já esticam essa conta para 36. Calma, porque uma coisa é somar deputados, outra é garantir votos.

Entre os reeleitos cresce a disposição de preservar a autonomia da Assembleia, mantendo uma relação institucional com Sergio Moro, mas sem aceitar que o Legislativo se transforme em puxadinho do Palácio Iguaçu. Não se trata de declarar guerra ao governador eleito, e sim de estabelecer os limites de cada poder.

Há interesses, ambições e uma presidência bastante cobiçada. Moro ganhou o governo do Paraná. A Assembleia não veio no pacote.

O MADALOSSO NÃO É CONFESSIONÁRIO

O jantar de terça-feira reuniu cerca de 230 prefeitos e quase três mil participantes, incluindo lideranças que trabalharam contra Sergio Moro no primeiro turno. Foi um belo exemplo de como a política consegue encurtar distâncias quando a eleição acaba. O encontro era de apoio a Flávio Bolsonaro, mas ninguém perdeu a oportunidade de conversar com o governador eleito, que prometeu parceria com todos os municípios. Ratinho Junior estava ausente, mas muitos de seus aliados compareceram, alguns certamente mais interessados nas relações com o futuro governo do que nas lembranças da campanha passada. Não significa que todos tenham mudado de lado, muito menos que divergências desapareceram.

Prefeitos precisam de recursos, obras e interlocução, e governos precisam de apoio político. No Madalosso, ninguém precisou pedir perdão pelos pecados eleitorais. Bastou encontrar uma cadeira à mesa.

A ESCALA 6X1 MUDOU A ESCALA DE FLÁVIO

Flávio Bolsonaro passou de crítico a apoiador do fim da escala 6×1 justamente quando a proposta se transformou numa das principais apostas eleitorais de Lula. Nesta quarta-feira, o Senado poderá votar a mudança em primeiro turno e, se aprovar um calendário especial, concluir também o segundo. O candidato do PL agora precisa conciliar a campanha presidencial com uma votação que interessa a milhões de trabalhadores, enquanto seus aliados tentam impedir que Lula fique sozinho com os dividendos políticos da medida. Há ainda um detalhe incômodo: Flávio sinalizou a interlocutores que, se eleito, poderá defender ajustes na proposta. Assim, apoia o texto agora e admite discuti-lo novamente depois. É possível que a conta eleitoral explique parte dessa flexibilidade.

O senador pode até faltar a um debate na televisão, mas dificilmente conseguirá ficar indiferente a um assunto que entrou com tanta força na campanha.

A INDÚSTRIA PUXOU O FREIO

A Federação das Indústrias do Paraná não embarcou no entusiasmo eleitoral pelo fim da escala 6×1. A Fiep defende outra proposta, baseada na remuneração por horas trabalhadas, e alerta para possíveis perdas econômicas e de empregos decorrentes da redução da jornada sem corte salarial. Bares, restaurantes e supermercados também querem mais discussão e preferem que a votação definitiva fique para depois das eleições. O curioso é que Flávio Bolsonaro, apoiado por setores empresariais e agora favorável à mudança, precisará explicar como pretende conciliar posições que não se encaixam tão facilmente. Lula, por sua vez, quer aprovar logo a proposta e apresentar o resultado ao eleitor. No meio dessa disputa estão trabalhadores e empresários, que continuarão convivendo com os efeitos da decisão muito depois de terminada a campanha.

Na política, a pressa costuma durar até a apuração. Na economia, a conta chega depois.

O PÚLPITO VAZIO NÃO SABE SE DEFENDER

Flávio Bolsonaro anunciou que não pretende participar do debate presidencial de domingo, na Band. Lula confirmou presença, e a emissora informou que manterá o encontro, com um púlpito vazio para quem não aparecer. A estratégia tem sua lógica: evitar um confronto que pode produzir desgaste numa disputa apertada. O problema é que a cadeira vazia também participa da campanha, ainda que involuntariamente. Lula terá a oportunidade de explorar a ausência e apresentar suas críticas sem enfrentar diretamente o adversário. A ironia aumenta porque, no primeiro turno, os dois adotaram estratégias para evitar determinados confrontos televisivos. Agora, com apenas dois candidatos, o argumento fica mais difícil de sustentar.

Flávio pode escapar das perguntas de Lula, mas talvez acabe oferecendo ao presidente algo ainda mais valioso: a oportunidade de fazer perguntas e respondê-las sozinho.

CAMINHANDO, CANTANDO E INCOMODANDO

A garotada resolveu sair das telas. Depois da enorme mobilização de domingo na Avenida Paulista e de manifestações em outras cidades, milhares de estudantes ocuparam ontem a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, numa caminhada de apoio a Lula que também levantou bandeiras como o fim da escala 6×1 e a defesa da educação pública. O movimento vem reunindo entidades estudantis, coletivos juvenis, influenciadores e até comunidades de fãs de artistas internacionais, acostumadas a organizar multidões pelas redes sociais. Nem todos esses jovens são militantes partidários, mas muitos descobriram na eleição uma razão para ocupar as ruas. Parte quer votar em Lula, parte quer impedir a vitória de Flávio, e outros se mobilizam para combater a abstenção. O candidato do PL também prepara novas manifestações com seus apoiadores.

A juventude voltou a fazer barulho na política. Resta descobrir quanto desse entusiasmo chegará efetivamente às urnas.

OS CABELOS BRANCOS TAMBÉM CONTAM

Enquanto os jovens ocupam as ruas, outra parcela do eleitorado pode ganhar importância decisiva no segundo turno: os mais velhos. Para quem tem mais de 70 anos, o voto é facultativo, mas isso não significa falta de interesse pela disputa. E existe um estímulo adicional para aposentados e pensionistas do INSS: o comparecimento às urnas pode ser aproveitado como prova de vida, mediante cruzamento de informações com a Justiça Eleitoral, dispensando outra comprovação para o procedimento anual. A facilidade vale também para beneficiários mais jovens e não depende da escolha feita na urna. É um incentivo prático que pode ajudar a reduzir a abstenção entre pessoas que já não têm obrigação de votar. Os candidatos estão bastante atentos à juventude.

Convém não esquecer quem já atravessou muitas eleições e conhece bem a diferença entre promessa de campanha e prestação de contas.

A URNA NÃO DEU A ÚLTIMA PALAVRA

Os cerca de 4,7 mil eleitores de Santana do Itararé, no Norte Pioneiro, terão trabalho dobrado no dia 25 de outubro. Além de escolher o presidente da República, precisarão votar novamente para prefeito e vice. A Justiça Eleitoral determinou a eleição suplementar depois de reconhecer compra de votos na disputa municipal de 2024, que terminou com a cassação da chapa vencedora. Brunão Mota e Zé Izac disputam agora a prefeitura. O Paraná conhece bem esse caminho: em outubro do ano passado, Cruzeiro do Iguaçu, São João e São Tomé também realizaram eleições extraordinárias por decisões judiciais relacionadas aos pleitos municipais. São disputas pequenas em termos de eleitorado, mas que lembram uma peculiaridade da política brasileira.

O resultado anunciado no domingo nem sempre encerra a eleição. Às vezes, a urna termina de contar e a Justiça ainda tem muito a dizer.

A DIVISA VAI PARA VOTAÇÃO

Em Chopinzinho e São João, no Sudoeste, os eleitores também terão um compromisso extra no segundo turno, mas não será para escolher prefeito. Os moradores decidirão se a comunidade do Alto Mirim, atualmente pertencente a Chopinzinho, deverá passar ao território de São João. O plebiscito envolve uma discussão sobre limites municipais, administração territorial e pertencimento de uma comunidade. Para os eleitores dessas cidades, a urna apresentará primeiro a disputa presidencial e, depois, a consulta sobre a mudança. É uma demonstração de que a democracia também se ocupa de assuntos que parecem pequenos para quem observa o mapa de longe, mas são importantes para quem mora no lugar.

Enquanto Lula e Flávio disputam o comando do país, os moradores do Alto Mirim querem ajudar a definir a qual município pertencerão.

TIAGO DESCOBRIU QUE A CONTA NÃO FECHA

Londrina entrou em regime de contenção de despesas. O prefeito Tiago Amaral, do PSD, enfrenta um déficit estimado em R$ 205 milhões para 2026 e determinou restrições de gastos, inclusive com horas extras, por 120 dias. A prefeitura atribui a situação ao desequilíbrio das contas anteriores e à frustração de receitas importantes. Tiago, que conhece o funcionamento do orçamento público pela passagem na Assembleia Legislativa, agora experimenta uma situação menos confortável: administrar uma cidade com serviços exigidos diariamente e dinheiro insuficiente para atender a todas as demandas. A matemática não costuma se sensibilizar com justificativas políticas, e o morador quer saber se a coleta de lixo, a saúde e a manutenção urbana continuarão funcionando.

O prefeito terá de demonstrar que o ajuste não será apenas uma boa explicação para um problema ruim. Londrina não vive de planilhas, embora dependa delas para funcionar.

MARINGÁ LEVOU UM PUXÃO DE ORELHA

O Tribunal de Contas mandou a Prefeitura de Maringá corrigir dois editais de credenciamento de serviços complementares de saúde. O problema está na ausência de critérios objetivos para garantir a preferência legal das entidades filantrópicas e sem fins lucrativos na distribuição dos atendimentos. A decisão não anulou os contratos, para evitar prejuízos à população, mas estabeleceu prazo para que o município regularize as exigências. A questão parece técnica, até alguém perceber que escolher prestadores de serviços do SUS envolve dinheiro público, interesses econômicos e milhares de pacientes. O Tribunal quer regras claras, e a prefeitura terá de demonstrar como pretende aplicá-las. Em administração pública, nem sempre a irregularidade aparece num grande escândalo. Às vezes, está escondida naquele detalhe do edital que ninguém parece interessado em explicar.

EM CARLÓPOLIS, FALTAM 32 CADEIRINHAS

A Prefeitura de Carlópolis, no Norte Pioneiro, foi parar na Justiça por causa da falta de vagas em creches. Segundo informações apresentadas pelo próprio município ao Ministério Público, 68 crianças aguardavam atendimento em agosto. A administração ofereceu uma solução parcial, com abertura de 36 vagas, deixando pelo menos 32 pequenos moradores sem lugar. A Promotoria quer um plano capaz de atender toda a demanda. O caso expõe uma dificuldade que se repete em cidades de diferentes tamanhos: a educação infantil continua sendo tratada como uma despesa difícil de acomodar no orçamento, embora sua ausência comprometa a rotina de famílias inteiras.

Enquanto os adultos discutem responsabilidades e prazos, há mães e pais tentando descobrir com quem deixar os filhos para trabalhar. Para essas famílias, uma vaga de creche vale mais do que muitos discursos sobre prioridades administrativas.

O PASSE LIVRE GANHOU MAIS PAPEL

Em Foz do Iguaçu, a Câmara Municipal aprovou alterações nas regras de comprovação para a gratuidade do transporte coletivo destinada a beneficiários previstos na legislação municipal, entre eles pessoas com deficiência e aposentados por invalidez em situação de vulnerabilidade. O projeto de Sidnei Prestes, do Podemos, atualiza uma lei de 2003 e estabelece exigências documentais para diferentes condições. A proposta ainda depende de sanção do prefeito. A intenção anunciada é modernizar a legislação e dar mais clareza aos critérios, mas será importante observar se o resultado simplifica ou complica a vida de quem depende do benefício. A administração precisa combater irregularidades, sem dúvida, mas não pode transformar a demonstração de um direito numa coleção interminável de documentos.

Afinal, gratuidade no transporte serve para facilitar deslocamentos, não para criar novas viagens entre consultórios e repartições.

ADVOGADO DO MUNICÍPIO OU DO PREFEITO?

Um diagnóstico do Ministério Público de Contas e da OAB Paraná revelou um dado que merece incomodar muita gente: em 111 municípios, o número de advogados comissionados supera o de profissionais efetivos. O levantamento alcançou 365 cidades e identificou 281 cargos concursados vagos, enquanto quase 98% das procuradorias participantes declararam não possuir planejamento estratégico formalizado. A discussão não é sobre a competência individual dos profissionais nomeados, mas sobre a estrutura jurídica das prefeituras e sua independência diante dos governantes. Um advogado público precisa defender a legalidade e os interesses do município, inclusive quando isso contraria a vontade de quem está sentado na cadeira de prefeito.

A confiança pessoal ajuda nas relações políticas, mas não pode substituir a autonomia técnica. Afinal, o município continua existindo quando o prefeito perde a eleição.

O CRIME TAMBÉM TEM CHEFIA À DISTÂNCIA

Mais de 500 policiais participam nesta quarta-feira de uma operação contra uma organização criminosa investigada a partir de Clevelândia, no Sudoeste. São 215 mandados judiciais, entre prisões e buscas, distribuídos pelo Paraná, Santa Catarina e São Paulo. A investigação envolve tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e crimes violentos, com indícios de que ordens eram transmitidas por integrantes do grupo de dentro do sistema penitenciário. É um problema que atravessará a troca de governo no Paraná e encontrará Sergio Moro, eleito com forte discurso de combate à criminalidade. A operação demonstra que enfrentar organizações criminosas exige muito mais do que policiamento ostensivo. Há estruturas financeiras, comunicação entre presos e integrantes externos e atividades que não respeitam fronteiras estaduais.

A segurança foi um dos grandes assuntos da campanha. Em janeiro, deixará de ser promessa para virar obrigação.

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