As urnas fecharam, mas disputa pela presidência da Alep está aberta

Assembleia Legislativa do Paraná terá novo presidente a partir de 2027. Foto: Valdir Amaral / ALEP

A URNA FECHOU. A BRIGA NÃO

A eleição acabou domingo e, na segunda-feira, começou outra. Não tem santinho, horário eleitoral nem urna eletrônica, mas já mobiliza deputados, partidos, prefeitos, derrotados e vencedores. Sergio Moro ainda nem escolheu onde vai sentar no Palácio Iguaçu e precisa começar a olhar para a cadeira de presidente da Assembleia. Deputados eleitos para quatro anos já fazem contas para as prefeituras em 2028. Pedro Lupion renovou o mandato e seu nome começa a frequentar conversas maiores em Brasília. Municípios que tinham representação perderam, outros multiplicaram suas cadeiras e até quem perdeu domingo já procura saber onde estará daqui a dois anos.

A urna pode ter encerrado uma eleição. A política, essa inconveniente, não fecha para balanço.

A PRIMEIRA “PEDREIRA” DE MORO

Sergio Moro ganhou o governo, mas sua próxima eleição não terá milhões de eleitores. Terá 54. A escolha da Mesa Diretora da Assembleia começa a entrar nas conversas e será o primeiro teste da capacidade de articulação do governador eleito. O discurso oficial certamente será o de sempre: independência entre os Poderes, respeito à decisão dos deputados e nenhuma interferência do Executivo. Bonito.

Na vida real, Moro precisará aprovar projetos, orçamento, mudanças administrativas e colocar o governo para andar. Começar o mandato com uma Mesa hostil seria remar contra a maré antes mesmo de tirar o barco do cais.

14 A 14. E A CONTA NÃO AJUDA

PL e PSD elegeram 14 deputados estaduais cada e poderão sacar da gaveta a velha tradição da proporcionalidade para reivindicar a presidência da Assembleia. O problema é que a proporcionalidade, neste caso, produziu um empate e foi embora sem deixar instruções. Qualquer um dos 54 deputados tem legitimidade para disputar a cadeira. O trabalho começa quando precisa juntar 28 votos em torno do próprio nome.

Na eleição de domingo bastava convencer o eleitor. Na eleição da Mesa, cada eleitor também é candidato a alguma coisa.

TRÊS, POR ENQUANTO

Flávia Francischini, Maria Victoria e Ademar Traiano são três nomes que já circulam nas conversas sobre a sucessão de Alexandre Curi. Três, por enquanto. Flávia, atual primeira vice-presidente, está no PL e participou do campo político de Moro; Maria Victoria e Traiano atravessaram a eleição em outra trincheira. Outros nomes aparecerão porque eleição de Mesa é uma dessas ocasiões em que a quantidade de candidatos costuma diminuir à medida que aumenta a quantidade de cargos disponíveis para negociar.

Presidente só haverá um. Mesa Diretora, felizmente para as negociações, tem mais cadeiras.

COLIGAÇÃO NÃO VEM COM FIDELIDADE DE FÁBRICA

Somar PL, Novo e Podemos, chegar aos 20 deputados eleitos pelos partidos que estiveram com Moro e chamar isso de base governista seria fácil. E errado. Do Carmo, o mais votado do Podemos, foi secretário do Trabalho de Ratinho Junior e mantém relações políticas com o grupo que deixa o governo. Outros carregarão compromissos municipais, relações pessoais e alianças que sobreviveram à campanha.

Coligação eleitoral vem pronta na ata. Base parlamentar precisa ser construída voto por voto. Moro terá de escolher quem fará essa costura porque, na Assembleia, calculadora soma partido. Não soma lealdade.

CURI SAI. MAS DEIXA A MÃO NA GARRAFA

Alexandre Curi deixa a Assembleia em 31 de dezembro, mas ninguém precisa imaginar que entregará a chave da presidência, desejará boa sorte e perguntará onde fica a saída. Depois de anos construindo relações dentro da Casa, terá peso na escolha do sucessor e certamente participará das conversas até o último minuto. Curi pode não estar na próxima legislatura, mas sua sucessão será provavelmente sua última grande articulação como presidente.

Talvez não escolha sozinho quem beberá o champanhe da posse. Difícil imaginar que não ajude pelo menos a escolher a garrafa.

2028 COMEÇOU ONTEM

A próxima eleição municipal será daqui a dois anos. Politicamente, começou ontem. A nova Assembleia terá 23 deputados que não integram a atual legislatura e 31 reeleitos, uma renovação de 42,59%. Entre os que chegam ou retornam estão ex-prefeitos, antigos candidatos a prefeito e lideranças municipais que conhecem muito bem o caminho de casa. Haverá também deputados reeleitos interessados nas prefeituras, derrotados de domingo procurando outro endereço eleitoral e prefeitos que ajudaram candidatos agora cobrando reciprocidade.

O mandato estadual começa em fevereiro. Para alguns, a campanha municipal pode começar bem antes.

FOZ DESCOBRIU A MULTIPLICAÇÃO

O novo mapa político do Paraná não mudou apenas partidos; mudou endereços. Foz do Iguaçu chega à próxima legislatura com Vermelho na Câmara Federal e Matheus Vermelho, Paulo Mac Donald e Yasmin Hachem na Assembleia. Quatro representantes diretamente vinculados à cidade, numa região que durante anos reclamou da distância política de Curitiba e Brasília.

A geografia continua a mesma. A quantidade de telefones para ligar nas duas capitais, não.

LONDRINA ENCOLHEU EM BRASÍLIA

Londrina continua sendo a segunda maior cidade do Paraná, mas sua bancada federal resolveu não acompanhar o tamanho do município. Marcelo Belinati será o único deputado federal com base política principal na cidade, depois das derrotas de Luísa Canziani e Diego Garcia. Na Assembleia, Londrina preservou três cadeiras, embora com renovação dos nomes. O contraste fica ainda mais evidente quando se olha para Maringá, que saiu das urnas com cinco estaduais e dois federais. População conta muito para quase tudo.

Para representação política, ainda é preciso combinar voto, partido e uma certa habilidade para não dividir demais a própria força.

TOLEDO VOTOU EM CASA. AS CADEIRAS FORAM EMBORA

Toledo oferece uma das ironias mais interessantes da eleição. O eleitor concentrou boa parte de seus votos em candidatos locais e, mesmo assim, a cidade terminou sem deputado estadual e sem deputado federal diretamente ligado ao município. É uma boa aula prática sobre o sistema proporcional: votar local não significa necessariamente eleger local.

Toledo fez força para manter os votos em casa. As cadeiras foram morar em outro lugar.

LUPION ESTÁ NA LISTA

Pedro Lupion mal terminou a campanha para deputado federal e seu nome já começa a frequentar conversas sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro. Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, ligado ao setor rural e politicamente alinhado a Flávio, reúne um currículo que naturalmente o coloca entre os nomes lembrados quando a conversa chega ao Ministério da Agricultura.

Há também uma curiosidade paranaense: quando Alexandre Curi entrou na chapa de Sandro Alex para o Senado, Lupion tomou outro caminho, aproximou-se de Sergio Moro e permaneceu no campo de Flávio. Moro ganhou o governo e Lupion renovou o mandato.

Para o ministério, porém, falta um detalhe um pouco maior: Flávio Bolsonaro ainda precisa ganhar a eleição.

DO PALÁCIO IGUAÇU PARA O SOFÁ

Roberto Requião recebeu 79.921 votos para deputado federal. Beto Richa, 58.946. Nenhum dos dois foi eleito. Juntos, governaram o Paraná durante boa parte deste século e conheceram o Palácio Iguaçu por dentro como poucos políticos da geração deles. A urna de domingo mostrou outra mudança que não aparece apenas na lista dos vencedores: sobrenome conhecido, mandato antigo e currículo comprido continuam ajudando, mas deixaram de funcionar como senha de acesso.

O Paraná renovou deputados. E aposentou algumas certezas.

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