QUATRO DO PSD DE OLHO NA CADEIRA
Mal terminou a eleição para governador e o PSD já tem outra disputa começando a aparecer pelos corredores da Assembleia Legislativa. Dos 14 deputados da bancada, quatro nomes estão no jogo para suceder Alexandre Curi: Ademar Traiano, Luiz Claudio Romanelli, Hussein Bakri e Gugu Bueno. Não são, evidentemente, os únicos nomes que poderão aparecer na disputa pela presidência da Casa, mas são os quatro postulantes que surgem dentro do PSD, cada qual com sua experiência, suas relações e sua maneira de conversar com os colegas.
O partido perdeu o governo, mas conservou uma bancada numerosa e boa parte da habilidade adquirida durante os oito anos de Ratinho Junior. Por enquanto, todos conversam, ninguém quer parecer apressado e cada um sabe que eleição de Mesa tem uma matemática muito particular: apoio anunciado com muita antecedência costuma valer menos do que voto contado perto da urna.
CURI PREFERE NÃO ESCOLHER O HERDEIRO
Alexandre Curi anda pouco animado com a ideia de organizar a própria sucessão na presidência da Assembleia. O resultado das urnas deixou suas marcas e, segundo interlocutores, sua disposição é terminar o período à frente da Casa sem montar chapa, distribuir compromissos ou assumir a responsabilidade de colocar alguém na cadeira que hoje ocupa.
É uma decisão que, se resistir às pressões dos próximos meses, pode complicar bastante a vida dos interessados, porque Curi conhece a Assembleia por dentro e sabe como poucos onde cada conversa começa e onde costuma terminar. O curioso é que, mesmo querendo ficar fora da disputa, continuará sendo observado por todos, inclusive por aqueles que juram não precisar de sua bênção.
Na política, até a neutralidade de quem tem influência acaba entrando na negociação.
MORO TEM BANCADA, MAS PRECISA DE ESCOLA
Sergio Moro terá 14 deputados do PL na Assembleia, o mesmo número do PSD, mas não convém confundir tamanho de bancada com experiência de plenário. Entre os eleitos, seis estreiam na Casa, cinco são parlamentares experientes que chegaram ao partido vindos de outras legendas e três já conhecem os caminhos do Legislativo de mandatos anteriores. É uma mistura que pode funcionar muito bem, desde que alguém consiga transformar trajetórias diferentes numa atuação coordenada.
O problema é que Assembleia tem suas manhas, seus acordos, seus atalhos e um regimento que costuma aparecer justamente quando alguém acha que já entendeu tudo. Moro conhece o funcionamento da Justiça e do Congresso, mas governar com deputados estaduais exigirá outra espécie de aprendizado. Do outro lado, o PSD perdeu o Palácio Iguaçu, mas não esqueceu onde ficam as portas, as chaves e, principalmente, quem costuma abri-las.
DEUS, COLLOR E O DINHEIRO VIVO
Dinheiro e política já produziram algumas explicações inesquecíveis no Brasil. João Alves, lá no escândalo dos Anões do Orçamento, ganhou tantas vezes na loteria que acabou recorrendo a Deus para explicar tamanha sorte. Agora foi a vez de Mauro Moraes buscar ajuda na história. Questionado sobre dinheiro em espécie no episódio investigado pela Polícia Federal, disse que guarda dinheiro vivo porque nunca esqueceu o que Fernando Collor fez com a poupança dos brasileiros.
Calma lá, porque as histórias são completamente diferentes, Mauro nega qualquer irregularidade e não há razão para colocá-lo no mesmo pacote de João Alves. O parentesco aqui é só entre as explicações, e já está de ótimo tamanho. Um tinha muita fé em Deus e ganhava na loteria. O outro perdeu a fé nos bancos depois de Collor. Quem diria que, tantos anos depois, Deus e Fernando Collor acabariam dividindo a mesma nota.
O FISCAL NA CADEIRA DO FISCALIZADO
Quem já recebeu uma cobrança do Tribunal de Contas sabe que não adianta responder pela metade, esquecer documento ou tentar explicar com conversa aquilo que deveria estar demonstrado em números. Pois agora chegou a vez de o próprio TCE do Paraná participar de uma avaliação de desempenho, com representantes da Atricon discutindo nesta quinta e sexta-feira os critérios que serão utilizados a partir de 2027. A iniciativa é importante e até merece aplauso, mas a inversão dos papéis tem seu encanto, porque quem costuma examinar metas, resultados e justificativas também precisa mostrar o que entrega à sociedade.
Tomara que a experiência seja proveitosa e que os avaliadores tenham a mesma disposição para fazer perguntas que os tribunais demonstram quando encontram uma prefeitura com as contas atravessadas.
A IA NÃO SALVOU O EDITAL
Matinhos entrou na onda da inteligência artificial e resolveu levar a novidade para um sistema de videomonitoramento urbano, mas a modernidade acabou esbarrando numa exigência bastante antiga: justificar corretamente uma contratação pública. O Tribunal de Contas determinou a anulação do procedimento, numa decisão de junho que continua sendo um bom exemplo dos excessos cometidos em nome da tecnologia, porque a presença de inteligência artificial no projeto não justificava o modelo especial de licitação escolhido pela prefeitura. Hoje basta alguém pronunciar as duas palavrinhas para aparecer uma promessa de revolução, seja na segurança, na educação ou na administração pública.
Só que edital não fica melhor porque aprendeu a falar a língua do futuro. Em Matinhos, pelo visto, faltou inteligência justamente na parte que não precisava ser artificial.
CURITIBA LICITA ATÉ A PACIÊNCIA
A futura concessão do transporte coletivo de Curitiba já reúne uma quantidade respeitável de fórmulas, indicadores, critérios de desempenho e mecanismos de reajuste, desses que fazem qualquer cidadão desconfiar de que precisará de um curso para entender a própria passagem. O Tribunal de Contas recomendou mais transparência em pontos importantes do processo, especialmente na maneira como a qualidade do serviço será medida e como os valores poderão ser alterados ao longo do contrato. O leilão está previsto para novembro, mas seria interessante que, antes de escolher quem vai operar os ônibus, alguém conseguisse explicar ao passageiro o que efetivamente mudará na sua vida.
Porque o cidadão pode até não entender de concessão, equilíbrio econômico-financeiro e matriz de riscos, mas conhece muito bem o desconforto de esperar no ponto, entrar num ônibus lotado e descobrir que a tarifa aumentou.
LULA E FLÁVIO CABEM NA MARGEM
A pesquisa Vox Brasil divulgada nesta sexta-feira coloca Lula com 44,2% e Flávio Bolsonaro com 42,7%, uma diferença de apenas 1,5 ponto percentual, dentro da margem de erro de 2,15 pontos. O levantamento ouviu 2.100 eleitores entre 5 e 7 de outubro e está registrado no TSE sob o número BR-09623/2026. Os números mostram uma disputa apertada, mas não esperem que os comandos das campanhas interpretem o resultado com a mesma serenidade dos estatísticos, porque cada lado encontrará uma maneira de enxergar vantagem onde a pesquisa recomenda cautela. Depois de meses de discursos inflamados, alianças improváveis e certezas anunciadas com enorme convicção, a eleição chega ao segundo turno com os dois candidatos praticamente dividindo o mesmo espaço. E ninguém parece disposto a admitir que ainda precisa conquistar votos.
CINCO MINUTOS PARA SEDUZIR QUEM NÃO AGUENTA MAIS
Lula e Flávio Bolsonaro começam nesta sexta-feira a dividir o horário eleitoral gratuito, com cinco minutos para cada um nos blocos de rádio e televisão, além das inserções espalhadas pela programação. O desafio agora é conquistar aquele eleitor que passou o primeiro turno longe dos comícios, não usa camiseta de candidato, não discute política no almoço de domingo e talvez desligue a televisão assim que aparecer a primeira musiquinha de campanha. Durante meses, os dois lados falaram principalmente para quem já estava convencido, mas o segundo turno obriga a descobrir que existe vida fora das próprias torcidas.
O problema é que esse eleitor costuma ter pouca paciência para discursos ensaiados e promessas repetidas, justamente o material que os marqueteiros mais gostam de colocar no ar. Serão cinco minutos para convencer quem, em muitos casos, já está há meses tentando escapar da conversa.
O PARANÁ SAI DE CASA
Ainda bem que nem só de eleição, tribunal e disputa por cadeira vive o Paraná. O feriado prolongado começa com Piazzolla no Teatro Ouro Verde, em Londrina, a ExpoArapongas reunindo música e gastronomia, programação no Mercado Público Barrageiro e no Sesc em Foz do Iguaçu, além de carros antigos, música e opções de lazer em Curitiba. Há programa para diferentes gostos e bolsos, embora a previsão de tempestades recomende alguma prudência antes de pegar a estrada.
Depois de uma semana em que tanta gente passou os dias fazendo contas sobre quem ganhou, quem perdeu e quem ainda pode ganhar alguma coisa, talvez não seja má ideia aproveitar o fim de semana para fazer uma pergunta bem menos complicada: aonde vamos?
