Não há nada mais triste do que um jogo sem torcida. O silêncio parece ser mais perigoso do que a pressão humana. Os jogadores, às vezes, parecem que têm medo das vozes do silêncio da arquibancada. É que é em um jogo sem torcida, que o jogador é apresentado em estado bruto, escancarando a sua natureza, os seus defeitos e as suas virtudes. Sem nenhuma influência humana, jogam o que sabem ou não jogam por não saber.
Um jogo sem torcida e sem gols, então, é a melancolia como maneira romântica de ficar triste, como diz a poesia de Mário Quintana. Como foi esse do Atlético, em Recife, contra o Sport. Por não ter nada o que perder, por ter perdido todos os seus objetivos, e porque jogava num estádio neutro, o Furacão poderia jogar com mais disposição ofensiva. Mas o conservadorismo de Cristóvão Borges, outra vez o retraiu, e só não provocou uma derrota em razão do goleiro Weverton. O zagueiro Cleberson foi o melhor do time. Talvez, seja a única boa notícia desse final de campeonato.
Alívio
Em um jogo sem torcida, mas com gol, tem-se conforto. E se o gol for da importância do gol que Henrique Almeida marcou, e que fez o Coritiba derrotar o Santos, no Couto Pereira (1×0) dá vozes ao silêncio da arquibancada.
O futebol é mesmo danado. Em 2009, o Coritiba foi rebaixado, com 35 mil coxas no Couto Pereira. Foi um jogo literalmente de desgraça. Agora, um jogo de portões fechados, sem torcida na arquibancada, com chuva, raio e trovão se revezando no céu pode se tornar histórico na sua vida. Pode ser o que os salvou do rebaixamento, depois de passar quase todo o campeonato entre os últimos.
E se for por esse jogo de ontem, merece continuar. E vai ficar devendo uma gratidão eterna a Pachequinho, que mostrou que não tem apenas estrela. No intervalo, corrigiu o time dominado pelo Santos, avançando a marcação. Jogando mais avançado, o Coritiba criou um espaço onde surgiu Henrique Almeida para fazer o gol da vitória.
Ficou uma dúvida maldosa: e se o Coritiba não fosse incentivado pela voz do silêncio, mas de 30 mil coxas como seria?
Lembrança
O jovem (24 anos) Altamir Turbai era criança ainda quando o seu Atlético ganhou o maior titulo da sua história, em 2001, de campeão brasileiro. Essa foi a imagem que cravou em sua memória, e a levou embora vítima de leucemia.
