Vitória da alma

Por ser uma boa metáfora da vida, o futebol tem dia que nos elouquece. Às vezes exerce uma influência tão grande em nossos sentimentos, que nos confunde como portadores de uma loucura crônica, que faz um gol parecer uma miragem.

Aconteceu ontem na Baixada que se cobriu para receber os coxas. Os jogadores de Atlético e Coritiba parecendo centuriões, correram tanto, marcaram tanto e lutaram tanto como se tivessem saído de uma aula sobre a história do Atletiba. Como se na aula tivessem aprendido sobre o valor moral de uma vitória no clássico, e como ser fiel a causa e à camisa.

Com o ambiente fechado pelo teto, as emoções foram turbinadas. Quando jogo terminou empatado em dois a dois, com dois coxas expulsos (Wellington e Norberto) os 26 mil torcedores descarregam o coração com aplausos. Bem resumido, foi um daqueles Atletibas que crava e não sai mais da a memória de uma geração. Esse da Baixada para a geração de jovens coxas e atleticanos, foi aquele 4×3 da minha (1971).

Mas a emoção não pode esconder uma verdade: o placar de dois a dois foi produzido mais pelo acaso e defeitos do que por virtudes técnicas. Pelo acaso, porque no gol de Wellington Paulista a bola veio de uma canelada de Marcos Aurélio, e no gol de Walter a bola veio de uma joelhada de Ytalo. E por defeitos porque os gols de Ruy e Edigar Júnio só saíram por falhas das defesas. Mas o futebol é tão extravagante, e por isso se torna extraordinário, que acaso e defeitos estão no mesmo estágio das virtudes como produtores de emoções.

Foi um jogo quase igual. O Coritiba, que está sendo criado por Ney Franco foi um pouco mais equilibrado taticamente. Mas foi um resultado absolutamente justo, porque não foi jogo da tática e da técnica. Foi jogo da alma. E, aí, todas são iguais.

O melhor em campo foi o coxa Ruy.

Essa coluna é uma homenagem a memória de Newton Cavet: morreu na tarde em que o seu Atlético fechava o teto da Baixada para receber os coxas.

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