Vingança

O brasileiro, eterno refém das promessas do poder do estado, que lhe criam a ilusão da proteção social, pode ter um sonho, que pelo menos na aparência parece ser sincero: o do Brasil vencendo a França para seguir em frente.

Mas Parreira, que já contraria o povo na escalação do time, agora quer contrariá-lo em seus sentimentos. Diz e insiste que este jogo do Brasil contra a França não tem o caráter de vingança, nem mesmo no sentido de revanche.

Mas a qual Brasil Parreira se refere? O seu Brasil desengonçado ou o Brasil deste sonho dos brasileiros?

Existem maneiras de falar quando o alcance é o povo. Talvez, como técnico, Parreira até tenha razão. No entanto, dizer simplesmente que tudo é diferente de 1998 não pode por dois motivos: um porque as consequências dos fatos foram além de uma derrota em final de mundial; o outro, porque no futebol, embora não pareça, a história eterniza vontade e sentimentos.

Os brasileiros têm contas sim a acertar com os franceses. A derrota de 98 deixou tantas mágoas que o futebol brasileiro entrou em convulsão. Dirigentes foram denunciados, empresários foram pegos, a influência da Nike foi investigada em CPI, Ronaldo teve a sua doença francesa devassada, transformando-se no único ser vivo submetido a autópsia.

Se outra vez for despachado pela França, o Brasil pode voltar a ter o ?complexo de vira-lata?, que tanto denunciou Nelson Rodrigues. Pelo menos perante os franceses. E aí, pode demorar outra chance como essa.

Não sei qual é conceito de revanche (aqui, vingança) de Parreira. Desde que seja um sentimento medido e bem temperado, é bom para quem é o instrumento para alcançá-lo, no caso os jogadores. Despertá-lo de maneira racional é forma de estímulo à alma e ao orgulho próprio.

Parreira não deveria correr o risco de ser tão frio em relação ao passado. Se voltar antes da final, ninguém mais do que Parreira vai querer um nova chance contra a França.

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