Nós ainda, por orgulho ou ignorância, não queremos acreditar, que já não temos mais o melhor futebol do mundo. Bem por isso, continuamos impondo um código de exigências, que com o tempo se tornam absurdas. Então, tornamos as coisas imperceptíveis, mas que no momento, que acontecem são carregado de beleza e emoção.
Vejam só essa vitória do Atlético sobre o Ceará, no Janguitão. Foi uma bela vitória, porque tão importante que o brilho da técnica, naturalmente ausente numa segundona, é a renúncia ao orgulho para se doar à luta, ir para a briga operária pela bola, a humildade de catar os raros espaços para serem ocupados num campo estreito, é, enfim, comer feijão com arroz como se fosse o máximo.
Não vi nada mais belo nesse final de semana, do que o gol de Marcão, o da vitória do Furacão sobre o Ceará. Recebeu a bola, e pobre coitado, teve que montar o lance entre botinadas em um pedaço de campo. De olhos fechados e de bico chutou no ângulo. Há algo mais belo do que um gol de bico e cujo autor da obra seja Marcão, que nesse momento se tornou um querido perna de pau?
Foi uma senhora vitória. Pouco importou a nova falha do goleiro Weverton, no gol do Ceará, e dos erros confessados nas intervenções do treinador Drubscki.
Se tudo foi rústico, cavado e brigado no Janguitão, não sei. Minha mãe Adelaide me ensinou, que o que os olhos não veem o coração não sente.
Mas esses mesmos olhos veem coisas grandiosas para o coração sentir: o menino Cleberson. Definitivamente, é a reedição em negro de Alfredo Gottardi, o maior zagueiro da história do clube. Com a noção perfeita do tempo de bola, com a inteligência acima da média para picotar caminhos e antecipar ao atacante, com a elegância no corte e na condução da bola, e sem dar um chutão, Cleberson dá motivos para comover até os insensíveis.