Um dia desses, fui ver o filme sobre a juventude do escritor tcheco Franz Kafka, que escreveu em alemão uma literatura cuja influência é eterna. Mentor pouco paciente com jovens escritores, aconselhava-os para que, às vezes, procurasse não o entender. “Por ser o pessimismo meu pecado, se vocês tentarem me entender, ficarão mal”.
Entre os meus defeitos não está o pessimismo. O que eu não tenho mais é ingenuidade para carregar ilusões. Mas concordo: às vezes, é melhor não entender as pessoas.
Há alguns fatos que ocorrem no Atlético Paranaense que é melhor não saber. E sabendo, é melhor não entender. E sabendo e entendendo, é melhor não calar.
Vejam só o que aconteceu. O presidente do Conselho Deliberativo, Mário Celso Petraglia, que já é presidente da CAP S/A, que é a representação formal do Conselho de Administração, que administra a Arena, reuniu a diretoria para comunicar que o Furacão contratou um CEO: Mário Celso Petraglia.
Justificou a sua contratação pela mesma razão que afirmou em público: não há executivo melhor do que ele no futebol brasileiro.
Não sabendo quanto Mário Celso Petraglia irá ganhar, obrigo-me a escrever, em tese.
A administração de um grande clube de futebol já não é mais para amadores. O idealismo pode até ser um componente importante e até imprescindível, mas já não pode ser uma virtude isolada. A função reclama uma capacidade que obrigatoriamente tem que ser composta de inteligência, vontade de trabalhar, liderança e às vezes intransigência para lidar com o excesso de renúncia e conhecimento pleno de todos os segmentos da instituição.
Entendo que dessas virtudes faltam ao novo diretor executivo do Furacão duas: conhecimento de futebol e espírito de renúncia. A sua intransigência é regra, que o leva ao arbítrio. Mas, também, exigir que ele tenha todas as virtudes é querer um ser que não existe, mesmo que esse se considere o próprio Deus.
Presumo que o mercado pagaria para Mário Celso Petraglia um salário fixo de 100 mil reais líquidos, porque é de se presumir que será registrado em carteira, e uma remuneração variável por metas alcançadas. Ganharia um percentual sobre os benefícios financeiros decorrentes da execução de negócios como promoção de espetáculos na Baixada, venda de direitos de televisão, venda e compra de jogadores, de publicidade, enfim, todos os itens que diretamente um clube pode vender ou comprar.
Qual a responsabilidade do CEO?
No caso de Mário Celso Petraglia é diferente.
Mas essa é uma outra questão.