Um monumental Furacão


Na Baixada, pela Libertadores, Athletico 3×0 Boca Juniors

A vitória de 3×0, esgotada nos números, já seria o bastante para deixar o coração acelerado, correndo sérios riscos. Ganhar do Boca de 3×0, em uma Libertadores, conquistada seis vezes por eles, não se ganha todos os dias. Mas os 3×0, digo-lhes friamente, foram apenas três detalhes de um de um futebol de época, jogado com lirismo pelo Athletico. Nenhum time brasileiro nos últimos anos jogou uma partida tão perfeita como essa que o Furacão jogou na Baixada.

No começo não foi fácil, foi perigoso. Benedetto perdeu um gol de cabeça e Santos fez um milagre. Mas lá pelos 25 minutos, depois de expor e recolher a sua ansiedade, o Furacão começou a jogar.

E, então, a partir de Lucho González, mostrou várias facetas, algumas conhecidas, outras nem tanto, mas todas perfeitas. Nesse catálogo mostrou o gosto pela bola, a capacidade de defender, marcar, atacar e contra-atacar, e de fazer tanto o passe curto como o passe longo, e ser frio para não responder os maus-tratos de Tevez.

E, então, em um cruzamento de Rony, que parece um gado marcado, a bola saiu cuspida de Lucho para Marco Ruben marcar o primeiro. Anotem o nome desse argentino, pois voltarei a ele mais duas vezes. O Athletico foi para o intervalo, e deixou o Boca nas cordas.

Quando a vitória por 1×0 sugeria que o Furacão recuasse, eis que seu inteligente treinador, Tiago Nunes, apresentou uma geometria que surpreendeu o mundo: o rubro-negro voltou jogando avançado, pressionando o Boca no seu campo, invertendo bolas, revezando o jogo curto com o logo.

E, então, aconteceu a jogada que deu lirismo à vitória do Furacão. Foi assim: Lucho González perdeu uma bola perto da zaga do Boca, que saiu em contra-ataque. Então, com humilde espírito de renúncia, com 39 anos, Lucho correu atrás do argentino e, com um carrinho, recuperou. A bola foi para Bruno Guimarães que, driblando em velocidade e para a linha da área, cruzou para Marco Ruben fazer o segundo. Foi o momento em que a emoção se tornou impura. Deu lugar para a comoção.

O Boca entregou-se como nunca havia se entregue. Estava caçando moscas, sem ilusão, quando tomou o terceiro gol, o terceiro de Marco Ruben.
Em resumo, foi assim: trazendo para o campo todos os sentimentos da arquibancada, somando-os as virtudes da técnica, para agrupar-se e trocar bolas; da renúncia, para marcar; ser veloz, para surpreender, o Athletico bateu na perfeição.

O Furacão foi tão servil e trabalhou e suou tanto como se fosse um escravo dos sentimentos dos 33 mil torcedores, que se passasse pela pena de Nelson Rodrigues seria um “um remador de Ben-Hur”.

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