Tropa do dinheiro

Os fracassos atuais do futebol brasileiro estão provocando uma corrida sem freio do povo, para satisfazer os sentimentos de torcedor. Sem ídolos, há muito tempo, no campo, o povo vai encontrá-los na piscina e na pista de atletismo.

Se o ouro ganho por Cielo na piscina provocou alegria, o de Maurren Maggi no salto em distância, provocou comoção. Não o salto físico da atleta, absolutamente previsível diante dos seus recentes antecedentes, mas o salto da mulher, ao qual precederam fatos, que só alguém com dignidade consegue superar: uma suspensão por doping injusta, o abandono a que foi submetida pelo sistema, a filha como referência para o retorno à vida.

Mas é preciso controlar esses sentimentos. Sem que o povo perceba, as vitórias de Maurren e Cielo podem e serão usados como referências por políticos e dirigentes olímpicos, de suposta evolução do esporte por força do investimento estatal. As conquistas dos dois atletas não podem ser associadas a nenhum projeto, pois nunca se gastou tanto para se ganhar tão pouco nas Olimpíadas. Nem as eventuais vitórias da quadra de vôlei consideradas, diante da imensidão de dinheiro que se despeja nas seleções de Bernardinho e Guimarães. A vitória, então, passa a ser obrigação.

A perda da Copa da França, em 1998, foi muito pouco diante da história de vitórias do futebol brasileiro. Não obstante, duas investigações estrondosas foram deflagradas com a CPI da Nike e a CPI do Futebol. E o futebol passou por essa provação, denunciou dirigentes, clubes e empresários, mesmo sem ter o benefício do dinheiro público.

É questão de coerência: solta-se tanto dinheiro público para o esporte, através do Comitê Olímpico, que o silêncio de Brasília irá comprometer ainda mais a classe política. Se o futebol investigou e puniu moralmente Ricardo Teixeira, o esporte não pode deixar de buscar esclarecimentos de Nuzman e sua tropa.

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