Angustiado por não jogar, Walter chutou o balde, deu de ombro e virou as costas para o técnico Autuori, para os seus companheiros, para a torcida, e foi para casa. Errou. O mais grave de tudo é que Walter desrespeitou a si próprio. O auto-respeito em certos momentos da vida é uma obrigação de todos nós. Com Abraham Lincoln aprende-se que “o auto-respeito é a raiz da disciplina; a noção de dignidade cresce com a habilidade de dizer não a si mesmo”.
O principio mais importante no futebol, por reunir grupos de personalidade heterogênea, é o da hierarquia. Desde que essa não seja usada com abuso, o seu exercício, ao invés de ser uma faculdade do comandante, passa a ser uma obrigação. Sem comando, é inevitável a instalação do regime anárquico.
Não há nenhum registro de abusos no histórico de Autuori. Não o conheço pessoalmente, mas a idéia que transmite por suas posições públicas é de um homem que usa o respeito para transitar na sociedade. Por esses principios pessoais, é possível afirmar que Autuori não é homem de praticar atos premeditados. Se Walter deve ou não jogar é questão de ponto de vista de cada um. Entendo que o Furacão é Walter e mais dez. Só que enquanto treinador, o ponto de vista de Autuori é o mais importante, e por isso deve prevalecer.
Mas o caso de Walter acabou sendo irrelevante por ser absorvido pelo ato da torcida “Os Fanáticos”. Após o jogo, um grupo dessa facção gravou e tornou público um vídeo ameaçando o craque: “Ou você joga por amor ou joga por terror”. Quem vê a imagem e ouve o áudio, extrai uma ameaça de violência.
Já escrevi o que penso sobre as organizadas: há pequenos grupos que se destacam e viram tribos. Os que ameaçam Walter são os mesmos que emboscaram o ônibus do clube no caminho do Afonso Pena. Mário Celso Petraglia se omite. Bem por isso, essas tribos se acham no direito de fazer ameaças públicas de violência aos jogadores, como a feita a Walter. Qualquer dia, Petraglia deveria deixar o dinheiro para Eudes Moraes (“Dr. René”, segundo Requião) contar, e ler Maiakovski: “na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”.