Largado pela quebra de rotina, recebo um convite de alguns amigos, todos coxas, para ver o jogo em que o Coritiba ganharia o título da Segundona em cima do Marília. Um convite surpreendente e exótico. Talvez por isso não consegui entender bem a razão pela qual, logo eu, estava sendo convidado por coxas para ver o Coritiba, campeão. Mas noites como essas, em que os convidados não têm compromissos com os sentimentos próprios, prometem, e se tornam longas.
Não querendo dar campo e participar da euforia alheia, fui tratando de me ajeitar. Arrumei um cantinho, bem de frente para a TV de plasma, de três dígitos, e fiquei à espera do jogo. Logo, ouviu-se o barulho dos 42 mil coxas no Couto, e a voz inconfundível de Jasson Goulart, que pelos gaguejos iniciais prometia uma nova narração inesquecível.
Não sei se foi pela atenção traída, mas não vi o surpreendente e relâmpago gol do Marília. Lembrei de Machado de Assis: tem coisas que a gente quer que aconteça, mas acha que não vai acontecer. E de repente, sem a gente perceber, acontece.
Mas não estava lá para fazer apostas contra os meus sentimentos. Sabia que os coxas tinham o excepcional Keirrison, e que logo empatariam. E sabia que, com dez homens e amontoado de medo na defesa, o primário Marília não resistiria à pressão. Mas sabia também que, se tinha Keirisson, tinha Ânderson Lima, antigo e pesado, por onde a bola passou para o Marília fazer o 2.º gol. Ânderson Lima parece o ?Terceiro Homem?, da obra imortal de Orson Welles: sabe-se que existe, mas não se vê. Enquanto o medo mudava de lado, dei um tempo para fazer um pedido a Santo Antônio: para Ânderson Lima ficar nos coxas para o próximo Atletiba.
O que era festa, passou a ser ambientado na tensão. Nem o gol de empate (2 a 2) mudou a emoção. Pensei no amigo anfitrião: o que fará com tanta carne de 1.ª e tanto chopp?
Mas o pior, ou o melhor, já não sabia mais, aconteceu: o 3.º gol do Marília, de um tal de Wellington Amorim, que deve ter jogado no Atlético.
Um dos presentes olhou-me e perguntou: está rindo? Lembrei de Fernando Pessoa: ?Acho tão natural que não se pense que me ponho a rir às vezes, sozinho, não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa que tem a ver com haver gente que pensa…?
Saí de fininho, e fui embora.
No meio do caminho, liga-me Nêgo Pessoa. Imaginei que queria falar da derrota dos coxas. Fala querido Nêgo: ?Você já leu tudo sobre o Joaquim Nabuco??
Era sexta-feira, 11 da noite…