Senzala

Não escondo minhas posições. Sempre sustentei que o Atlético, ou qualquer outro clube, tem o direito em razão da lei de onerar as rádios pelas transmissões de seus jogos. A Lei Pelé quando trata do tema refere-se aos direitos sobre o som e a imagem.

Mas exercer esses direitos dados pela lei não é usá-los para abusos. A cena após a vitória sobre o Santos, dos jogadores sendo conduzidos para o vestiário, guardados pelos trogloditas que lhes seguram, cercados por divisórias de aço e em fila indiana contraria os princípios que preservam a liberdade de ação e que compõe os direitos da personalidade do ser humano.

Engana-se o Atlético que está sendo fiel à política de valorização da marca. Ao praticar atos como o da Vila, empurra o seu direito para o campo do abuso, e aí o torna ilegal. A violência do ato é bem mais grave do que o cerceamento ao direito de trabalho. No caso, atinge a própria dignidade das pessoas: dos repórteres, que são evitados como portadores de vírus contagioso; da torcida, que quer ouvir os novos ídolos, e agora dos próprios jogadores. A maioria desses formada por jovens é submetida à privação de usar esse momento de lirismo das vitórias, do direito de expor a sua alegria, de mostrar o seu orgulho e de contar dos seus sonhos.

Analisadas pelas lições de sociologia de Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala, a cena foi bruta. Nas lições de Fernando Henrique Cardoso, ao revisitar a obra de Joaquim Nabuco, em seu recente e estupendo “Os Pensadores que inventaram o Brasil”, foi discriminatória.

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