Na sua obra clássica Formação do Brasil contemporâneo, o sociólogo Caio Prado Junior, um dos interpretes mais festejados do país, nos convence de que as transições das relações do nosso povo, em especial entre nação e colônia no processo histórico que originou o Brasil, foram exageradamente pacíficas. Sem um único tiro, com apenas um grito, o Brasil ficou independente de Portugal, seu senhor. Talvez, por isso, é possível afirmar o comportamento passivo do nosso povo.
Lembrei-me dessas lições que aprendi lendo “Os pensadores que inventaram o Brasil”, de Fernando Henrique Cardoso, agora, com a reação de alguns clubes, e entre os quais, para o nosso orgulho, estão Atlético e Coritiba, ao sistema corrupto do futebol brasileiro.
O conflito entre CBF e federações com os clubes da Primeira Liga fará bem ao futebol brasileiro. Se a criação da nova entidade fosse pacífica, haveria que se temer, pois teríamos apenas a conciliação dos mesmos interesses que afundaram o futebol brasileiro. Aos que já se escancaram, iriam se juntar os escondidos. E o sistema, só que ampliado, continuaria com o mesmo caráter: corrupto. Seria abandonar a aldeia ao seu destino. Seria um conglomerado do crime. O desfecho dessa crise não interessa apenas aos clubes, mas a todos nós. Recuar agora causaria um dano irreparável ao futebol brasileiro. Bem mais grave do que os 7×1.
O conflito vai continuar. E tem que continuar, porque quanto mais controversa e traumática seja a solução, mais alimentada e vigorosa será a Primeira Liga. Os franceses, que se dizem donos da razão, porque deram o grito de liberdade cortando 30 mil cabeças na guilhotina, às vezes acertam: não há santos, sem martírios.
De primeira
Todos os dias há uma foto do presidente do Atlético Luiz Sallim Emed com um sorriso rasgado. Ontem foi com a presidente Dilma. O doutor Emed talvez não tenha consciência, ainda, do que é ser presidente quando a bola não entrar. Ou entrar.