Sangue azul

Um processo de violência contra a torcida do Atlético está em pleno andamento. A sua capacidade está sendo sufocada e a sua sensibilidade anestesiada, condenando-a ao aniquilamento.

O diretor de marketing Mauro Holzmann falou para quem quisesse ouvir e escrever: “É preciso que o torcedor contribua mais com a receita dos clubes. Por isso é necessário que tenha poder aquisitivo. Aquela história de só ficar no alambrado gritando “queremos jogador” acabou. Quer o quê, cara pálida?”

Holzmann só fala o que pensa o seu amo Mário Celso Petraglia. Neste caso, equivocou-se. Petraglia nem sempre pensa certo. Quando se trata de ver os interesses da torcida, então, pratica atos inconciliáveis com a paixão de arquibancada. Seu sonho – nunca negou – é transformar a Arena em um teatro, lotado de nobres, pagando o preço da Ópera de Paris.

Foi uma frase infeliz de Holzmann. Está na contramão da nova ordem econômica. Uma das condições da Alemanha para sediar o Mundial de 2006, foi praticar preços populares. O futebol é para reunir amigos e famílias de todas as classes, disse Franz Beckembauer. O amo de Holzmann, talvez, colocaria de outra forma, embora a idéia final fosse a mesma. Despreza a triste verdade de que o mundo empobreceu e que o Brasil passa fome.

Com raríssimas exceções, todos nós, independentes de classe social, tivemos atingido o poder de ganho. A proposta é imoral, na medida em que discrimina os torcedores pelo poder do dinheiro.

Uma simples interpretação extrai-se da frase a pior espécie de discriminação social: pobre é pobre, rico é rico. Na frase, uma agravante: o pobre além de ser pobre, e não mais poder ir à Arena, gritar “queremos jogador”, é identificado brutalmente como cara pálida. Sabe-se, cara pálida, era como os índios identificavam os brancos no oeste americano. No futebol brasileiro foi banalizado por João Saldanha para discriminar aqueles dos quais não gostava. Holzmann discriminou ao perguntar ” quer o quê, cara pálida”.

Se não houver uma intervenção popular para interromper este processo discriminatório, logo avançará ainda mais. Para entrar na Arena e ver o Atlético jogar, o torcedor terá que provar ter sangue azul. A proposta é desonesta e a frase inconseqüente.

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