Ao tratar da parceria que o Atlético está por formalizar com os japoneses da Kyocera, o presidente João Augusto Fleury da Rocha ilustrou a sua oração com um exemplo. Disse ele: ?é como se você tivesse uma parede branca na sua garagem e uma empresa se dispusesse a pagar todo o gasto que você tem nela para pintar a parede com duas cores e colocar o nome?.
Poderíamos, simplesmente, propor o silêncio eloqüente que o ministro Marco Aurélio sempre propõe em seus votos no Supremo Tribunal Federal, quando a causa é uma aberração jurídica. Mas como é impossível calar diante de absurdos, criou o silêncio eloqüente adotado por todos os ministros.
Não sei onde o presidente do Atlético mora. Se em apartamento ou em casa. Se mora em uma casa (apartamento não pode, pois a garagem é uma área comum), é de se propor custear as despesas de sua garagem. Compramos a parede em branco, e a pintamos com duas cores. Verde e branco, pagamos e exigimos. Aprovadas as cores, procuremos um nome. Já o encontramos: Coxa. O presidente, em tese, teria que aceitar: contrato é contrato, e o patrocinador que paga, exige, quer e pinta de verde e branco, escrevendo Coxa. Então fica tudo consumado: a garagem da casa do presidente do vermelho e preto é pintada de verde e branco, emoldurada para estampar um nome exigido por seu rico patrocinador. E todos os dias, quando estaciona o seu carro, o Dr. Fleury tem que bater de frente com aquele panorama.
Como atleticano de alma (imagino que ainda não esteja perdida), o dr. Fleury fica indignado, humilhado, raivoso; então, rasga o contrato, e ele mesmo devolve a cor histórica de sua parede.
Nesta figuração do exemplo imaginamos uma garagem, que guarda carros, mas talvez não seja a garagem imaginada, guarda também bugigangas.
A Arena não é uma garagem. É um local que recepciona uma história de quase oitenta anos. E as suas cores não são o vermelho e preto alienados a um gosto qualquer, ou um modismo imposto em passarelas. São cores criadas pela história e harmonizadas por sentimentos que são preservados entre gerações. Ao generalizar ?duas cores?, os japoneses poderão exigir as suas duas cores. Podem ser vermelho e branco, ou branco e preto. Mas como a generalidade das ?duas cores? incentivam a imaginação, podem ser verde e branco.
Como o dr. Fleury tem razão de ficar indignado com a temerosa imaginação do aproveitado do espaço da garagem de sua casa, os torcedores do Atlético têm o absoluto direito de não permitir que se mudem as cores da Arena.
Já fui contra a parceria, hoje, de acordo com o benefício do Atlético, não sou mais. Mas sou contra esta psicose mercantilista que domina o Atlético, que é capaz de vender a própria alma.