Recordações

Sou um romântico indestrutível. Gosto de buscar no passado exemplos e lições. Dá até a impressão que às vezes pareço aquele personagem de contos infantis, que não gostaria de que o tempo passasse. Mas pobre coitado de mim, que o tempo atropela, só me restando as lembranças do tempo juvenil e adolescente.

Escrevo isso, porque me lembrei dos Atletibas dos anos setentas. Passei-os atrás do gol do monumental Jairo, um goleiro negro, alto, forte que o Coritiba foi buscar em Joinville. Jairo transformava todo o Atletiba em pesadelo para os atleticanos. Era sempre o mesmo drama: o Atlético criava, atacava e Jairo pegava tudo. De repente, uma escapadela de Kruger, Zé Roberto ou Abatiá liquidava com os sonhos, Coritiba: 1×0.

Neste Atletiba de sábado no Couto foi um pouco diferente. O Atlético fez os coxas sangrarem. Ganhou de dois a um não porque sendo melhor, foi melhor, mas porque o herói estava do seu lado: o goleiro Tiago Cardoso, como Jairo neguinho de perfil alinhado e formoso, alto e corajoso, veloz e frio. Naquela bola chutada por Marcelo da pequena área mostrou toda a sua grandeza de goleiro: em milésimo de um segundo, teve que encolher quase dois metros de corpo, em espaço que cabia um centímetro, para buscá-la no chão. Era Jairo de trinta anos atrás, só que chamado de Tiago Cardoso e jogando pelo Atlético.

A partir da segurança oferecida por Tiago, o Atlético fez um jogo mais inteligente do que bonito. Jogou na crise do Coritiba, que improvisando técnico e time, saiu para o campo sem idéia, sem projeto e com um pecado: deixou livre Evandro, outro monumento do jogo. Evandro ganhou uma bola na defesa, conduziu-a até a intermediária coxa, e com um toque de gênio colocou Lima na cara de Douglas. Atlético, 1×0. O empate veio por um paradoxo: calmo demais, ainda lembrando Jairo, Tiago se desligou da bola. Essa ao invés de sair como ele pensou, estava em campo. Uma cabeçada e Coritiba, 1×1.

No segundo tempo o Atlético maltratou o Coritiba. Fez o segundo gol com aquela jogada previsível em que Jancarlos cruza para Paulo André cabecear. Depois jogou a bola para Dagoberto administrar com retenção e atração para faltas.

Ficou para os coxas a ilusão da bola na trave que correu a linha e foi para fora. Com os olhos afogados diziam: não é possível.

Mas era e foi, porque como Jairo tinha, Tiago também tem sorte.

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