Recordação

Há fatos tão importantes que acontecem em nossa vida, que se transformam em lembranças eternas. E, às vezes, precisamos provocá-los. Se fosse possível viajar no tempo e voltar para épocas anteriores de minha vida no futebol, escolheria duas. Uma mais recente, mas que vai ficando longe em razão da carência, é o daquele 16 de dezembro de 2001, quando, na Baixada, o Atlético derrotou de virada o São Caetano por 4 x 2, saindo com as faixas de campeão do Brasil, para vesti-las em São Caetano.

Se fosse possível viajar um pouco mais iria até o Couto Pereira, como fui em 15 de maio de 1983, como repórter da Independência, para viver outra vez aquele Atlético 2 x 0 Flamengo, pela semifinal do Brasileiro.

Lembro. Jogando por dois resultados iguais, o Furacão perdeu no Maracanã por 3 x 0, sem Bianchi e Jair Gonçalves na zaga e sem Assis no meio. A reversão vencia a barreira do sonho e chegava ao impossível. O time do Flamengo era formado pela geração mais nobre que o clube teve: a de Zico. Mas aí, no jogo da volta, surgiu um fato extraordinário: 70 mil pessoas entupiram o Couto Pereira, gritando a uma só voz “Atlético! Atlético!”, ambientando o jogo no desafio ao impossível. Nunca mais tanta gente foi a um estádio no Paraná.

Estava trabalhando atrás do gol da Igreja, de Raul Plasmann. Ao meu lado, estava Jorge Luiz, um volante de futebol requintado, que saira daquela fornada da geração Zico. Com Lino, em 1982, tinha vindo para o Atlético. Lino foi embora, Jorge ficou.

Tudo aconteceu muito rápido. Pela direita, Capitão envolvendo Júnior desmontou a defesa do Flamengo: Washington fez dois a zero. Jorge Luiz gritou para Capitão cruzar, por que Marinho, o zagueiro, tremia. Numa dessas bolas, quase Assis fez o terceiro.

Quando a esperança estava passando para o estágio da certeza, todos recuaram: o Furacão, o Flamengo e a esperança, que voltou ao estágio da ilusão.

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