Peso da camisa

Há quem diga que eu não entendo de futebol, e que por isso disfarço as suas coisas nas entrelinhas e jogo com as palavras. Pois eu quero dizer que não ligo para isso. Continuo achando que futebol não é só a bola correndo, o jogo jogado ou idealizado pela tática. O futebol é mistério, e por isso que às vezes, se desliga da vida real. Há fatos que não se veem, mas que se sentem. Aprendi lendo Nelson Rodrigues, que o jornalista não deve ter o culto do fato, mas da alma.

Bem por isso, escrevo: o Paraná tremeu ontem na sua Vila, quando viu que a camisa que tinha que vencer era a do Atlético, o Furacão. E de um Atlético infantil, que só um dia desses largou as fraldas.

O Atlético já era peça descartada. Não lhe dava atenção, quase todos lhe davam as costas com desprezo. É que em uma semana, havia perdido duas vezes para o Paraná, o que criou uma lógica de nova derrota neste jogo da Vila querida. Mas, aí, veio o Furacão: seus juvenis correram como nunca e jogaram como nunca, como que se fosse a última chance de entrarem na adolescência.

Resultado: Atlético 2 x Paraná 0. O Furacão está nas semifinais.

E nem venha dizer, que o Paraná jogou desconcentrado por falta de alimentos. Pelo que jogou, o Furacão ganharia. Aqui, um parêntesis: a grande derrotada foi a diretoria do Paraná. O fracasso foi uma lição definitiva de sua incompetência na administração do clube, levando os funcionários, incluindo os jogadores, à privação de alimentos.

O menino Marcos Guilherme desmontou o Paraná. Comandou o jogo. Os dois gols foram apenas corolário.

Fui ao cinema ver Catherine Deneuve, mal cuidada aos 71 anos, em “Ela vai” e não vi os coxas ganharem do Rio Branco por 2×1. No rádio do carro ouvi alguém falar que Alex não fez nada no primeiro tempo. Em casa, vi os melhores momentos do jogo: Alex fez tudo. Deu o passe para Keirrison empatar, e depois, magistral, fez o gol da vitória cobrando falta. Continua carregando os Coxas com a sua perna esquerda, nas costas. Um conselho para os colegas de rádio: só comentem a atuação de Alex depois do jogo terminar.  Está pintando o que previa, e o que continuo querendo: Atletiba no final.

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