Paixão em férias

O discurso de Brasília mudou e, ao invés da Copa do Mundo que deixaria legados, passou a ser a Copa que será a representação viva da paixão do brasileiro pelo futebol. Há um esforço do Poder Central, que só falta incorporar em sua campanha nacionalista, a figura do Jeca Tatu, jogando bola no Maracanã. E o Jeca de Dilma, ao invés do caboclo mísero e doente de Lobato, que precisava tomar Biotônico Fontoura, seria um jovem alto, forte e craque da pelota. Provoca-se o sentimento autoestima no laboratório de ufanismo, no qual o cientista é o Galvão Bueno.

O novo discurso estatal, também, não empolga. O sociólogo Paulo Prado em seu “Retrato do Brasil” conclui que o brasileiro é triste, não no sentido existencial, mas no aspecto de submissão, não reagindo contra o estado corrupto.

Foi esse estado de tristeza, que também, influenciou no sentimento do brasileiro pelo futebol, transformado em paixão.

Mas, já há algum tempo, o brasileiro está deixando de ser triste por submissão. Já não é tão doce e cordial ao tratar dos seus direitos.

Os movimentos sociais, a luta por um desconto de 20 centavos, um magistrado como Joaquim Barbosa, o exercício pleno do direito a liberdade de imprensa, de manifestação e greve, mostram que o brasileiro descobriu que há coisas mais importantes para fazer. Bem por isso, tomando brios libertários deu férias a algumas paixões.

Pelo futebol, inclusive. A incontrolável queda de público nos estádios alcançou um estágio que contraria a reativação da idéia de que o brasileiro é apaixonado por futebol. Nosso povo não gosta mais do futebol como um fim.

Não se vai mais a um estádio simplesmente para ver um jogo de futebol. O futebol se tornou apenas um meio transitório para ele preservar um valor, que é o seu clube de coração, e esse, ainda, se estiver ganhando.

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