Eram bons tempos, aqueles. Reuníamo-nos em grupo de amigos para escolher os melhores. Não eram bons tempos só de amigos; mas eram tempos que existiam os verdadeiros melhores no futebol. Eles vinham, assim, sem traumas para a memória. Alguns eram tão bons, que davam um pulo a mais; eram ótimos. Babávamos pela sobra. Ficava a sensação de injustiça porque muitos, mesmo sendo ótimos, eram excluídos.
Os tempos mudaram. E não iriam mudar, se só sabemos que o tempo existe, mas nem sabemos o que é o tempo, ensina Santo Agostinho.
Nos tempos de hoje, os amigos rareiam. Quase caem da palma de uma mão. É que a solidariedade, como naqueles tempos, já não é produzida tanto pelo sentimento de querer, mas pela pretensão de ter, se é possível.
E nem precisaria mais de muitos amigos. Para que tê-los aos maços se simplesmente já não mais existem os melhores para escolher. O infeliz não quer ser homem, diria Graciliano Ramos; os nossos nem se importam de ser os melhores, querem apenas ser para ter. Sem graça e sem encanto. Talvez, porque simplesmente não podem. Se for por isso, temos um consolo.
Amanhã termina esse ano.
Não lembro de um ano mais pobre para o futebol. Nenhum melhor, ótimo impossível, nenhuma emoção. Nada.
A imagem mais forte que fica é a da cabeçada de Zidane em Materazzi na final da Copa da Alemanha. Um gesto nobre, porque revelou que existe quem ainda é capaz de proteger os seus valores imateriais pelos sentimentos.
Entro em férias. Volto no final de janeiro.
Feliz 2007.
A vida já me ensinou que para ser feliz não precisa muita coisa.