Um professor chega na sala de aula, e pede para que os alunos interpretem a frase de um autor desconhecido: “O Coritiba foi campeão do pior campeonato paranaense da história”. A interpretação de um texto exige, em regra, que se investigue o espírito desse autor. No caso, estaria ele, sim, conduzindo o intérprete a concluir, que se o campeonato não fosse ruim, o Coritiba não teria sido campeão.
A frase não pode ser interpretada só com a influência do espírito. Para interpretá-la é necessário associar a ele os elementos externos, como as classificações casuais (Atlético), os cruzamentos injustos (Londrina) e as eliminações precoces (Paraná). Considerando todos esses elementos, seria possível afirmar que o Coritiba não ganhou o título por ter sido o melhor (esse foi o Paraná), mas por ter aproveitado mais as circunstâncias que desordenaram o campeonato.
Mas há quarenta anos que eu atravesso o Jordão, e entre as lições que aprendi, tem uma soberana: o futebol não permite que se interprete o espírito ou os elementos objetivos que constroem um fato. O futebol descarta tudo isso, e só quer saber de uma coisa: quem foi o campeão? E só o campeão entra para a história, deixando as circunstâncias de fora.
Que me perdoe o autor desconhecido, eu entendo que é possível valorar um pouco mais esse título do Coritiba. E o motivo é forte: ganhou em cima do Atlético Paranaense, seu rival histórico. E ganhou, em um momento, em que a sua gente admite uma submissão histórica a que o clube está remetido pelo crescimento patrimonial, popular e técnico do Furacão. Ganhando, provou que perdeu muitas coisas, mas preservou o orgulho próprio, embora nesse futebol mercantilista, o orgulho seja coisa só de idealista, que são poucos.
E nem se diga que o título foi conquistado contra um Atlético deformado tática e individualmente. Seria injusto atribuir esse motivo, porque Autuori bagunçou tanto o Furacão com seu “planejamento”, que já não se sabe mais quem é titular e quem é reserva. E ninguém pode garantir, que não há diferença entre reservas e titulares, tamanho o engano que a torcida rubro-negra foi submetida. Se o Atlético pretendeu reverter os 3×0 com Grafite e Crysan, a única pretensão foi a de enganar a sua torcida.
O empate sem gols ontem foi espelho que mostrou a cara do campeonato: fraco e pobre.

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