A importância de um gol é valorada pelas circunstâncias do jogo. Pode ser um gol de beleza irretocável, mas que se esvazia diante de uma circunstancial irrelevância. É o gol de honra do time já goleado.
Há gols de beleza profunda, mas previsíveis. São aqueles inerentes às características táticas de um time ou da individualidade do seu marcador. No histórico de Pelé, há gols belos, mas que em razão da sua genialidade, tornavam-se previsíveis. Quem não o via no momento, não precisava ver à noite na televisão, porque no jogo seguinte seria repetido. A bola parada da entrada da área, passando rente a barreira e entrando no ângulo, era a marca que Zico exibia quase todos os domingos no Maracanã.
O gol olímpico, aquele que sai de um chute de escanteio, pode não ter a beleza do gol de bicicleta, a do gol pelo chute de primeira, ou do gol como corolário de uma jogada centrada em dribles.
Sua beleza é diferente, às vezes inusitada, sempre inexplicável. É que a beleza do gol olímpico está na surpresa. Só o jogador que marca tem a consciência que pode fazê-lo, mas sente-se impedido de escancará-lo para o mundo exterior. Pode-se garantir um gol desta ou daquela forma. Mas não se pode dar garantias de se marcar um gol olímpico. Daí não existir torcedor, que algum dia tenha esperado por ele.
O gol olímpico que Marcelinho Paraíba, do Coritiba, fez no Morumbi contra o São Paulo, foi uma dessas raridades no futebol atual. Ajude-me a lembrá-lo: a bola saída em linha reta do canto de fundo, para chegar ao gol de Rogério Ceni, tinha que passar por uma concentração de jogadores, todos eles altos e já com o impulso em ação para subir. De repente, todos, inclusive os coxas, se veem refém da queda da bola em curva, ficando imobilizados para alcançá-la. O poderoso Rogério, em especial.
Não tenho recursos para explicar o gol. Só mesmo uma autoridade em aerodinâmica para entender e explicar a variação que Marcelinho deu à bola: de tempo, porque parecia que nunca iria chegar; de sentido, porque a bola saiu alta e reta, caindo em curva no momento de entrar.
O que aprendi agora, foi que a beleza do gol de Marcelinho não está apenas na surpresa. Mas no inexplicável.