Quando as esperanças do idealismo parecem reprimidas, eis que uma, talvez a última. Leia esta frase: ?Meu sonho era fazer um gol pelo Atlético. Estou feliz, muito feliz?. Ela não foi dita por um poeta, porque o poeta por mais inspiração que tenha, às vezes é obrigado a simular um sentimento. Nem pense que foi de um senhor letrado, que pelos livros e pela vida tem o sentimento na ponta da língua. Não pense que foi produto da farsa daqueles beijando tudo o que vêem na frente, camisas, distintivos e bandeiras. O sonho realizado foi do menino Pedro Oldoni, lá longe, em Cianorte. Pedro sonhava fazer um. Fez dois.
A frase, dita neste mundo mercantilista, que tem preço para tudo e bota preço até na alma, pode ter um tanto de pureza, e o outro tanto de ingenuidade. No futebol pode ser interpretada como um romantismo para a ironia, um ideal que às vezes parece estar falecido.
Volte-se a frase, decompondo-a. ?Meu sonho era fazer um gol…? Daqui, já se extrai o sentimento do querer a realização do ideal: fazer um gol. Qualquer um sonharia em simplesmente fazer um gol, mas não com o objetivo que Pedro teve, mas para poder atropelar os sonhos já programados, o preenchimento de lacunas da vida pela matéria. Siga-se a frase.
O sonho -, e aí é que está a importância, não foi um sonho qualquer, pois o sonho de Pedro não era só fazer um gol. Já deve ter feito tantos em campinho de várzea, de terra batida, no campo improvisado na calçada, ou num daqueles golzinhos de madeira, que quando crianças temos no quintal de casa, ou num pedaço da sala. Então, embora exista no genérico um pouco de ideal, mas fazer simplesmente o gol tornaria o sonho de Pedro vulgar.
O sonho – como se não fosse sonho, era alienado, só poderia terminar sob uma condição: ser marcado pelo Atlético. Não se pode dissociar o sonho de fazer um gol, da condição de ser pelo Atlético. Por isso é que o corolário da frase se torna um sentimento puro e grandioso.
Um gol pelo Atlético bastava para ?ser feliz, muito feliz?.
A realidade do menino começa com um sonho.
Agora, sim, ?a partir disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo? (Fernando Pessoa).