Bem que as aparências não deveriam ser obrigatórias. É, há aparências que mostram a beleza, mas não necessariamente o belo. A aparência de um gol, por mais bela que seja, pode não significar necessariamente tudo. Pode ser apenas uma parte, que por ser exterior, encerrar nela a sua grandeza.

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O terceiro gol do Atlético, de Marcos Aurélio, contra o Nacional do Uruguai, é um desses gols, cuja lembrança será segura apenas pela aparência.

Não custa lembrá-lo: na intermediária do Nacional, Marcos Aurélio dribla o zagueiro e lança Dênis Marques, que desprezando o olhar e usando o sentido de sentir para antever, dá um passe de letra para alguém, que depois foi ver, era Cristian. Este, em velocidade, em um pedaço de grama dribla com o corpo e lança para a área. Então, Marcos Aurélio (lembram dele no começo da jogada?), como se fosse o último ato, e como astro principal, volta à cena. Frio e calculista, domina, dribla e chuta para as redes.

Existe notícia de um gol mais bonito nos últimos tempos?

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A história de um gol tem mais de paixão do que de razão. A dimensão da sua beleza é dada pelos olhos de quem sente e não de quem somente vê. O que é mais bonito para um pode não ser para o outro.

Por isso, a beleza do terceiro gol do Atlético deve ser considerada pelos elementos que não se vê, mas que concorreram com a força de Cristian, o sentido de antever a próxima jogada de Dênis, e o talento e frieza de Marcos Aurélio para, na área, driblar, olhar e chutar para o gol.

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Então, lembremos outra vez do lance e do gol. Foi aos 54 minutos, e o Atlético já ganhava por dois a um, e podia até empatar. No entanto, parecendo ser ele a implorar por uma reversão de resultado, corria como nunca. E por correr, jogada com velocidade, inteligência e técnica. Pergunta-se: qual o time no futebol de resultados de hoje em dia que, aos 54 minutos, ganhando e até podendo empatar o jogo, corre tanto e se projeta de forma quase perfeita em campo com velocidade, técnica e organização? Aqui, o Atlético teve força e velocidade em razão da preparação física e organização tática para chegar ao gol por jogadas associadas uma a outra. A jogada iniciando e terminando com Marcos Aurélio não é apenas iniciativa do jogador, mas exigência do trabalho tático de Vadão.

Cheguemos ao passe de Dênis Marques. A importância dele não está apenas na beleza do passe, como é todo o passe de letra, em que as pernas entrelaçam e tiram o equilíbrio do corpo. A importância está na sensibilidade de Dênis de fazer tudo isso sem orientar-se pelo olhar, mas pelo sentido, de que pela esquerda estaria vindo alguém.

E era Cristian, que com excepcional visão do jogo e do campo, achou vazio e, gritando ou não para Dênis, teve a bola para dar a Marcos Aurélio, que, vindo de trás, fez o gol. Aqui, houve inteligência de Dênis e Cristian, força para raciocinar aquela altura do jogo e esquema tático.

O gol de Marcos Aurélio foi o resumo do que deve ser o futebol como arte e jogo coletivo.

Personagem de filme de Orson Welles, tinha um outro homem que não apareceu: Vadão.