Mudanças

Qualquer juízo sobre o futuro do futebol brasileiro só fará sentido real para poder ser considerado se as mudanças reclamadas forem radicais. Só mandar Felipão para o inferno, dando-lhe o rumo que ele próprio ensinou, ou rever métodos de trabalho com uma nova comissão técnica. Mudar o goleiro e o centroavante é apenas consequência natural da derrota no futebol.

Nenhuma mudança influenciará com benefícios imediatos e duradouros se não for atacada a estrutura do comando central do futebol brasileiro levando de arrasto as periféricas Federações, que o sustentam com voto.

Não há razão lógica para mantê-lo. Não há sob o aspecto administrativo porque apodreceu com o desvio de finalidade: ao invés de cuidar do futebol como fim social, a gestão se apoderou da seleção brasileira para gerar recursos bilionários, sem reversão para os clubes. Não há razão moral porque não houve sucessão, mas apenas transferência de poder de um chefe acusado de corrupção para outro, que com ele conviveu durante 25 anos. E esse ciclo cheio de vícios foi mantido com a nova eleição. Não há como dissociar pessoas que convivem tanto tempo.

Só com o fortalecimento dos clubes é que o Brasil poderá recuperar a identidade perdida. A questão é lógica: se a razão principal para os fracassos desde 2006 é a falta de qualidade dos jogadores é porque falta investimento. É um descaso investir mais na seleção do que nos clubes, deixando os clubes sempre mais pobres e a CBF sempre mais rica. Para se afastar do romantismo usando o Brasil (58, 62 e 70) como exemplo, tome-se a Espanha: só conseguiu ganhar um título mundial (2010) em razão do projeto desenvolvido pelo Barcelona.

Ou a Alemanha, que agora é exemplo de tudo, tem a sua estrutura individual e tática baseada no Bayern de Munique. Então é certo que os clubes têm que ser fortalecidos. Mas aí surge outro grave problema: os clubes não são confiáveis. Seus dirigentes, em regra, são irresponsáveis. Sem lei especial que os persiga pessoalmente praticam gestões temerárias.

Seria necessário buscar uma intervenção legislativa (aí a Fifa não pode intervir) para o Brasil voltar a ser o melhor do mundo. A única esperança imediata é o movimento que os jogadores devem retomar, o Bom Senso FC. É o único instrumento disponível para iniciarem as mudanças. Só que tem que fazê-lo agora pois não haverá outra oportunidade. E o estado de putrefação do futebol brasileiro está em um estágio que não há mudança com diálogo, é preciso radicalizar. Não adianta mais gestos simbólicos: o de cruzar os braços ou o de trocar bola agora irá concorrer para que estado continue deteriorado.

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