Mordomo

As mais famosas estórias policiais desviam a atenção do leitor, fazendo crer que o assassino é o personagem principal. Mas o final surpreende: o mordomo é o assassino.

Com o tempo, com a perda da ingenuidade do leitor, os romancistas procuraram outras vertentes. O assassino passou a ser outro. Às vezes, o próprio personagem de centro. O mordomo passou a ser poupado. Quando eventualmente participa da trama, nem é percebido. Hoje, pobre do mordomo, está jogado às traças. Salvou-se – mas não se sabe até quando, Paul Burrel, que revelou os segredos de Lady Di.

Os grandes fracassos na história do futebol seguem o mesmo princípio. A culpa imediata, quando não é o árbitro, é só do técnico. Eventualmente é poupado, surgindo um outro vilão: o goleiro. Da história que eu conheço, o único técnico brasileiro isolado de culpa mesmo perdendo da Copa do Mundo de 1982 é Telê Santana. A imagem que gravamos e que preservamos é a da seleção de futebol mais excepcional depois daquela que ganhou o tri. Para os ingleses, foi melhor do que a do tri. Lembramos da insegurança do goleiro Valdir Peres, da bola atravessada de Toninho Cerezo e da falha de cobertura de Júnior em dois gols da Itália. A história não conta eventual erro de Telê. Mas em regra, quase sempre injusta, o técnico é quem mata o time.

O treinador Antônio Lopes e os jogadores do Coritiba deram uma versão inusitada para o gol de empate do Olimpia: o gandula foi rápido demais na reposição da bola. Dizem que deveria ter visto Adriano desligado e a defesa decomposta.

Não se pode negar que o futebol segue a literatura. Em tudo e por tudo está se moderizando.

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