Marcas da paixão

A sua história não pode ser contada com as lembranças guardadas na memória. É que lembranças são de fatos, que se fragmentam e até são esquecidos com o tempo. A história da Baixada tem que ser contada somente com os sentimentos, que cada fato provocou, e que foram pegos e guardados pelo coração. Então, uma história, que parece ser simples para outros, é a definitiva, por ser a mais bela para quem a guarda.

Querem que eu conte algum fato vivido.

Prefiro contar três emoções sentidas.

1970, quarta-feira à tarde de chuva. O Furacão tinha que ganhar do União Bandeirante para depender apenas de si no domingo em Paranaguá. Saiu perdendo, Djalma Santos jogou fora um pênalti. Mas, aí, Deus mandou uma encomenda que atendia pelo nome de Sicupira, que, com dois golaços, fez o Atlético vencedor. Larguei o microfone e fui comemorar com o meu ídolo. Logo depois, o Atlético voltou a ser campeão.

1996, sábado. O Atlético jogava contra o poderoso Palmeiras de Luxemburgo, que estava há 20 partidas invicto. Seu treinador era o incomparável Evaristo de Macedo. Prelecionou Evaristo: “A derrota é o nosso direito. Então já que podemos perder, vamos atacar.” O que eu vi foi o maior jogo do Furacão do meu tempo: 2×0, gol de Paulo Rink e Oséas. O que a torcida, Evaristo de Macedo, Alberto Valentin, Paulo Rink e Oséas fizeram, provocou uma marca inapagável em cada atleticano.

2001, domingo. Atlético 4×2 São Caetano. É possível esquecer o terceiro gol, de Alex Mineiro, depois do passe de calcanhar de Souza? Nem a morte é capaz de apagá-lo da memória.

A Baixada é esse valor, cuja beleza não se vê, e que parece sair de um verso de Fernando Pessoa: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Para ir para o céu não precisa morrer. Basta ir à Baixada.

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