A camisa do Atlético (ou de qualquer outro time) não se veste mais por amor. Este romantismo foi esmagado pela natureza empresarial e mercantilista que foi imprimida no futebol. Por isso alguns conceitos que eram atrelados ao idealismo foram deformados pela nova ordem.

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E dessa mudança, o conceito de jogador, craque ou não, está limitado a duas situações: há o jogador, que é também profissional, e há jogador, que não é profissional. Aquele, independente de ter as virtudes técnicas limitadas, sobrevive; esse, mesmo que alcance o estágio de craque, não tem vida longa.

Entre nós, o exemplo de jogador – e no caso excepcional, que é profissional, é o goleiro Flávio, do Paraná. Flávio está entre os três maiores goleiros do futebol brasileiro. Se jogasse no São Paulo como Rogério Ceni ou jogasse no Corinthians, seria o maior. Depois de Gomes, e a opção em segredo do Corinthians.

Aos trinta e quatro anos de idade, Flávio não alcançou esse estágio de graça. A partir de uma irrepreensível conduta como homem, tratou a carreira como uma opção definitiva de vida, sabendo dos seus limites futuros. Não cria fantasias para evitar o trabalho, submete-se a qualquer regime imposto pelo comando, é sério não por economia de sorrisos, mas por causa da alma. Então, Flávio é o exemplo perfeito do jogador profissional.

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Dagoberto, brilhante e formoso com a bola nos pés, é um péssimo exemplo. Apresentado como craque sem sê-lo por interesses de uma parceria pouco transparente que existe sobre os direitos do seu vínculo, tornou-se ídolo. De ídolo passou a mártir em razão de uma grave contusão. A partir daí tornou-se um péssimo profissional: mau orientado pelos Malaquias, seus agentes, e já não muito certo dos seus rumos pessoais, passou a ser estrela. Além de mau tratado clinicamente, concorreu com aqueles rumos. Nas férias, no período mais importante de recuperação, preferiu trocar as sessões de fisioterapia pelas mazelas de Camboriu. Este comportamento pessoal, embora tenha sido importante para retardar sua recuperação, apenas integrou o conjunto de erros, do qual o comando do Atlético, mesmo que involuntário, participou. Com medo de que uma colisão que matasse a ?galinha dos ovos de ouro?, sob pressão da lei, silenciou. Permitiu que a conveniência pessoal do jogador fosse sobreposta ao interesse do clube, que era a recuperação plena.

A nova contusão de Dagoberto, independente de ser grave ou não, é negativa sob todos os aspectos: coloca em dúvida o resultado prático estrutura física do Atlético, na medida em que não consegue recuperar o seu melhor jogador, e a sensação forte de que Dagoberto é de vidro. Lembro do personagem de Gabriel Garcia Marques, Florentino Ariza, no ?Amor nos Tempos da Cólera?, que depois de acender um charuto de tropeiro, se queixou: ? A única coisa pior do que a má saúde é a má fama.?

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É o momento do Atlético repensar a sua estrutura, e de Dagoberto repensar a sua vida.