Lucro

Imagens existem, que uma singela interpretação estende o significado dos fatos. É o caso da imagem da criação do fenomenal cartunista Tiago Recchia. Na Tribuna de ontem, Tiago desenha um latão com a marca CAP, já afogado de papel, e lhe legenda com ironia, a partir da centenária canção de natal: o Jingle Bell. No caso, o papel não representa só o objeto jogado pelo torcedor que levou o Atlético à perda do direito de mando na Arena. O significado maior está na queda livre do time no Campeonato Brasileiro.

O deslumbramento cega o ser humano: vê como verdade definitiva o que é apenas uma ilusão, verdade que se for, ainda não tem forma. E quando ela chega com maldade, faz-nos sofrer, e deixa-nos amargos.

Há quatro jogos o Atlético não ganha. Há dois jogos perde. Não sei ainda se é líder; e, se for, como anda jogando, é um detalhe da sorte. Futebol ganha quem é o melhor, embora, também precise de sorte; mas futebol não se ganha só com a sorte.

Mas não sejamos severos com a paixão. No futebol ela se sustenta dessas ilusões, porque as verdades verdadeiras já não são mais transparentes neste futebol mercantilista e interesseiro.

Escrevi que o Atlético voltaria a perder. E perdeu para o Goiás.

Perdeu como perde todo o time que chega ao limite pela superação. Uma coisa é atingir o topo pelo conjunto de atributos técnicos e individuais. Neste caso é possível manter-se em razão de que os motivos são naturais; a outra é chegar à liderança pela superação emocional, a partir da força e do estímulo da torcida, fatores que por se afastarem das virtudes naturais, em dado momento se esvaziam.

Lembremos do jogo contra o Goiás. No segundo tempo, por três vezes a bola chegou em condições de entrar. Da pequena área, com o gol escancarado, Raulen chutou para fora. O lateral mostrou força física para chegar naquele momento e naquele lugar para fazer o gol. A qualidade que se reclamava para o chute no gol, Raulen não tem.

Às vezes a ilusão é tão forte que ganha forma de verdade. E é daí que decorrem os equívocos fatais. O goleiro Diego é o exemplo: tem fama de bom, parece que é bom, é feito um herói, mas em quase todos os gols que o Atlético sofre, sempre fica a sensação de que falhou. No primeiro gol do Goiás, adiantado, atraiu o chute de longe; no segundo, sem noção de espaço, deu um passo para o lado. Raulen é fraco, sabemos; Diego é fraco, mas acreditamos que é bom.

Não quero dizer que o Atlético virou o fio e que foi posto do avesso. Não sei se amanheceu líder. Se amanheceu, jogou outra vez com a sorte. Se for sempre assim, em jogo de sorte, qualquer ganho é lucro.

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