Jeito de viver

Em suas “Confissões”, Santo Agostinho ensina que, para tudo, temos duas vontades, mas nenhuma é completa: o que existe numa falta na outra. Mas, na execução da vida, nem sempre é assim.

O sentimento que o querido Munir Calluf deixou aos amigos foi o de ser dominado por uma vontade única e completa, então excepcional: a de romper com a vida para ir juntar-se, outra vez, com Marli, já tendo arrematado a sua obra com a criação e educação dos filhos Miguel e Marcelo, e atendido aos seus ideais. Até para ir embora de uma vez, Munir foi o mesmo homem: sincero e intransigente.

É fácil escrever sobre Munir, porque é fácil escrever sobre as pessoas que só fizeram o bem, embora às vezes sejam incompreendidas.

Escreveu a sua história no futebol em quatro décadas. Tornou-se místico. Do dirigente revolucionário dos anos sessenta, comentarista clássico de rádio, que passa pela então inusitada criação de escolas para ensinar futebol para crianças, faz um longo estágio como desbravador do mercado japonês, até o profissionalismo. Foi tão excepcional e inusitado que, desafiando a si próprio e aos seus sentimentos de juventude, um dia se viu dentro do Atlético, trabalhando por ele e torcendo por ele.

Uma história tão bela e tão grandiosa que, contada por quem não tem o poder de convencimento, pode desafiar o crédito da verdade, ganhando a natureza de lenda. Uma história de vida pessoal e profissional fascinante, ambientada com amor, amizade, ideal e honestidade.

A maior perda não é da história, pois essa já estava escrita e não irá se apagar. A perda maior é de todos seus amigos. É perda sem consolo porque a lembrança se eterniza, confundindo-se com a saudade. Mas com Munir tudo era extraordinário. De repente, morreu para voltar a viver.

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