Invencível

Recebo um vídeo do barraco que Kleber Gladiador, jogador do Coritiba, armou em uma boate em Foz do Iguaçu. No meu tempo de repórter, quando um jogador se excedia em boate, eu tornava público o fato dizendo: Fulano quebrou a boate. Dirão que o fulano a que eu me refiro é Zé Roberto, o maior craque dos anos 70 do futebol paranaense. Pois esse Zé gostava da noite, mas não era de arruaça. Em uma boate, seu comportamento era exemplar: bebia pouco, nunca mantinha uma fixa, pois não queria se apaixonar. Discreto, ficava em um reservado. Ali era o seu mundo para receber e fazer carinhos. No clarear do dia, ia embora treinar. Sabia que algum atleticano ou coxa lhe pagaria a conta.

Zé Roberto, o “Gazela”, era assim: como velho jornalista de Gabriel Garcia Marques em “As memórias de minhas putas tristes”, era um ser solitário, desafiando os limites do amor. Zé fazia todos felizes: no campo, com gols antológicos, fora praticando o amor com “suas putas”.

Kleber parece ser diferente. Uma das virtudes do romântico é a paciência para esperar pelo que quer. Kleber não é dos que transige, é impaciente. O ambiente de boate torna incontrolável os impacientes. Incontroláveis. Qualquer coisa demore, seja uma bebida, ou seja um carinho, é o bastante para reagir com violência. O seu histórico em fazer arruaças e agredir pessoas é rica de fatos. Já bateu em pessoas que com ele convive, já brigou em boates, e até deu uma surra no atacante Dagoberto, quando o Brasil disputava o Mundial sub-20 nos Emirados Árabes.

Bem por isso, o adjetivo de Gladiador que carrega, já não é mais por lutar dentro de campo. É por, literalmente, lutar fora. E, aí, é invencível.

Que saudades de Zé. Com ele não havia ‘puta triste’.

Simbolismo

Se a Primeira Liga começa sem impacto público em razão de seu caráter amistoso, sem objetivo final, como a classificação para um torneio continental, é fato irrelevante. A relevância no enfrentamento ao sistema corrupto da CBF e das Federações. Dito de outra forma: o sucesso técnico, o sucesso de público, o caráter amistoso, tudo é irrelevante. O que importa é a criação do símbolo da luta contra a tirania que maltrata o futebol brasileiro.

Para Atlético e Coritiba, nossos representantes, a importância é bem maior do que se conclui em análises superficiais. Um dos principais motivos para o fracasso dos dois clubes no Brasileiro é a falsa representação do Estadual (Coritiba) ou de pré-temporadas exóticas (Atlético). Cria-se a ilusão com uma boa campanha no Estadual e com a sofisticação que é um torneio, em terra batida, contra times de segunda, na Espanha. Embora não seja trânsito definitivo para conclusões, jogar a Primeira Liga dará a exata noção do estágio de nossos times, suas virtudes e suas carências. Atlético e Coritiba jogarão contra Inter, Fluminense, Flamengo, Grêmio, Atlético-MG e Cruzeiro, que por tradição disputam o título brasileiro.

Mas concluo: tudo é irrelevante diante do símbolo que vai se criar com a bola rolando na Primeira Liga.

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