Passando os últimos dias em Porto Alegre, quase faleci: o suor pelo calor revezando-se com a enchente pela água, a explosão do sentimento colorado, e o brio dos gremistas para enfrentar com seu passado o enlouquecido exército vermelho.
Mas nenhum desses motivos foi mais provocante do que a ponta de inveja que sentia dos gaúchos. Deles, causa mais nobre, impossível: cada um com o seu título de campeão do mundo.
Confesso que me senti desconfortável com a pergunta que me fazia: por que razão os clubes de Curitiba ficaram com esse extraordinário atraso de dois títulos mundiais em relação aos gaúchos?
Meu consolo foi a resposta imediata.
O Paraná sempre foi a versão inocente no futebol. De fusão em fusão, nem conseguiu ainda uma verdadeira e definitiva identidade. O Coritiba construiu um belo estádio, ganhou títulos, mas nunca se preocupou em criar uma estrutura que o sustentasse independente de vitórias no campo. Passou a ser um time de futebol, que eventualmente era grande. Hoje, quando o futebol exige mais do que vitórias, nem a eventualidade lhe socorre. Está jogado em uma segunda divisão, sem saber o dia que volta. E se volta.
O Atlético, durante setenta anos viveu confundindo idealismo com espírito amador, enganando-se com o sacrifício isolado de pessoas. Só a partir de Mário Celso Petraglia, em 1995, é que passou a viver o mundo de uma realidade selvagem, sem romantismo, em que a vida no campo é mera consequência da sustentação pela estrutura definitiva. É quando o dinheiro da segunda-feira não depende necessariamente da vitória do domingo. O próprio Atlético dá exemplo dessa verdade: só não foi rebaixado para a segunda divisão esse ano por força da sua estrutura.
Se Deus der saúde a Petraglia, mantendo o seu espírito de orgulho, grandeza, mesmo com alguns preconceitos, talvez o Atlético seja o único a conseguir cortar um pedaço dessa ponta de inveja que temos e devemos ter dos gaúchos.
Rivalidade
Os colorados estão indo além de comemorar o título mundial. Advogados que torcem para o Inter estão preparando uma ação para que sejam declaradas as diferenças com o título do Grêmio. Segundo os colorados, o título do Grêmio de 1983, não foi em torneio patrocinado pela Fifa, não foi contra o campeão da Europa, foi contra o segundo, o Hamburgo; e que os alemães jogaram em Tóquio com um time de reservas.
O grande anúncio que já foi encomendado para colocar na entrada principal do Beira-Rio é esse: Internacional, único campeão mundial do Rio Grande do Sul.