Escancarando o seu despudor, mostrando ser insensível aos valores subjetivos, jogando os disfarces para o brejo, Mário Celso Petraglia colocou fogo no Atlético.
Porque quer voltar a mandar sem oposição, para gastar o que acha que deve – e não o que o Atlético pode, na construção da Baixada – e porque quer formalizar o projeto da Fundação Atlético, com o objetivo ser o senhor do clube enquanto viver, foi para o vale tudo: tornou público o que ele supõe ser o valor do salário de cada jogador.
O art. 5º, X da Constituição, dispõe da proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, assegurando direito de indenização por dano moral ou material pela violação. Segue seu inciso XII para confirmar a inviolabilidade sobre o sigilo de dados. E no art. 7º, X, a Constituição recepciona o princípio da proteção ao salário, incluindo-se, aí, o seu sigilo.
Divulgado por um ex-presidente, e titular dos poderes para construir uma das maiores obras de Curitiba (a Baixada), seria inacreditável. Transcrito por aquele que quer a confiança para voltar a ser presidente, foi arrasador. Como atleticano, Petraglia violou o código de ética que ele próprio legislou para garantir a inviolabilidade dos dados da vida atleticana. Hipótese objetiva de ato irresponsável, porque foi motivado por motivo desprezível, que é a política do clube. Beira o fundamentalismo.
Ao divulgar dados sigilosos do clube violou o princípio da confiabilidade, pressuposto indisponível para alguém que detém poderes para gerir 200 milhões de reais na construção da Baixada.
A gravidade do ato de Petraglia ganha toda a sua extensão quando alcança em cheio a pessoa dos jogadores, porque os tornam submissos aos critérios que informam o sentimento do torcedor.
Petraglia não tem noção das consequências que seu ato de violação ao direito subjetivo dos jogadores (dados salariais) pode provocar. O torcedor moderno, cuja natureza é mais violenta do que apaixonada, apega-se a qualquer motivo, mesmo aos irrelevantes, para reagir para bem ou para o mal.
Mas nenhum motivo é mais relevante do que o valor do salário do jogador. É dele que surge o critério para as suas reações: de indiferença, se o time ganha, porque o jogador estaria cumprindo apenas a obrigação; de inconseqüência, pois se o time perde, o jogador é mercenário. Todos os dias, em plena luz, estamos vendo jogadores sendo vítimas de agressões.
Por bem menos, as declarações meramente técnicas do treinador Luiz Felipe Scolari foram indicadas pelo atacante Kleber como responsáveis pelas agressões que os torcedores do Palmeiras praticam contra os jogadores.
Petraglia está virando um ingrediente grotesco na vida do Atlético. Vai acabar virando uma ficção. Pode ser que até lá os enlutados sejam todos os atleticanos.