A injúria racial foi disseminada no futebol já faz algum tempo. E o futebol, em razão da sua natureza passional, relevava-a sob o pretexto de que sua origem era produto do calor do jogo, e não uma manifestação da vontade real do ofensor.
Com Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra “Raízes do Brasil”, aprende-se que o negro, pelas mais variações que a vida lhe ofereceu, tornou-se o “homem cordial”. O pai de Chico não quer que se introduza no conceito da expressão, o sentido de bondade. Mas. um processo de interpretação lógica de leitura, remete para a conclusão de que expressão ganha o sentido de “homem vulnerável”.
Se essa é a ideia que se tem do negro em qualquer segmento, no futebol se escancara. Mas, aqui, há negros que não são “homens cordiais”. Dotados de personalidade forte, são capazes de absorverem ofensas.
E o exemplo clássico foi do lateral direito Daniel Alves, ao ser agredido por um espanhol com uma banana (literalmente, a fruta), descascou-a e comeu. Um branco não teria a inteligência, o improviso, o raciocínio e a personalidade que Daniel teve no momento.
Mas o goleiro Aranha não conseguiu absorver as ofensas gaúchas. Nem mesmo a solidariedade do povo e da Justiça conseguiram apagar as marcas que ficaram.
Agora, em Curitiba, a injúria racional alcançou o grave estágio da intolerância humana. Desta vez não foi em um estádio de futebol, sob a influência da revolta por uma derrota. Não foi por paixão ou por desabafo. Foi pela rede social, quando ao se escrever ou antes de mandar, dá para pensar e retroceder no ato. Se envia, é a manifestação da vontade em estado bruto de ofender.
Não há no futebol mundial, um exemplo tão grave de injúria racial como essa praticada contra o zagueiro Márcio, do Coritiba. Mas, tolerante, mesmo sabendo da autoria e sendo pública a prova do crime, a polícia ainda não foi prender o autor.
Canarinha
O Brasil joga em Porto Alegre, contra o Equador, já arrumando as malas para a Rússia. Com Tite no seu comando, mudou a natureza dessas eliminatórias: ao invés de uma competição, tornou-a em um período luxuoso de preparação para a Copa do Mundo.
O Brasil de Tite tornou-se tão intenso (é a expressão preferida do treinador), que provoca conflito de opiniões. O escritor José Sámano, no El País, que identificou um “desmatamento” do futebol brasileiro, a partir da injustiça com o talento de Zico, Sócrates e Falcão, e a ambiação ofensiva de Telê Santana, em 1982, obrigando-se a assumir a scolarização, ainda, não está convencido de que os brasileiros voltaram a “arar o solo”.
O treinador da Alemanha Joachim Löw já não é guardador de expectativas. Preferindo assumir a sua realidade, usando uma retórica de fundo romântico, afirmou: “O Brasil já enterrou os 7×1 , e junto com eles, enterrou o seu luto”.
Se há motivo para conforto e esperança, não há para muito otimismo. A geração de goleiros não tem nenhum expoente, e a zaga com Miranda, Marquinhos e Tiago Silva é carregada de dúvidas.