História de Tostão

A história de Tostão me comove. Por ter sido craque com a consciência de que havia um limite para a sua bola parar, tornou-se médico. Por continuar estudando, lendo e relendo manteve a capacidade de analisar o corpo, a alma e a vida. A formação de berço, que presumo ser responsável por sua conduta pessoal irrepreensível, conciliada com a sua cultura forjada campo e na escola, transformam-no no maior cronista de futebol do jornalismo brasileiro.

Toda a semana, as suas crônicas dão ensinamentos definitivos a dirigentes, jogadores e treinadores sobre o futebol de fora e de dentro do campo. Embora profundas, são dadas de forma acadêmica que não exigem mais do que uma simples leitura para a sua compreensão. Até Paulo Autuori seria capaz de entendê-las.

Mas, às vezes penso, que Tostão é um estranho no ninho. Ele dá lições certas para um futebol autodestrutivo, desleal com o seu passado, que mandou para o lixo, que não quer ouvir e estando doente, pelos mais diversos interesses não quer se tratar, submetendo-se aos seus inquisidores. Seu noticiário é um boletim de índices negativos: falta de estrutura, de evolução tática, de dividas, de craques, de ídolos e de moral. O nosso futebol atual nada mais é do que o Brasil em seu todo, o Brasil como escreveu Mario Vargas Llosa: vive uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda, marcada por um flagrante delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade.

Inconformado

Por ser assim, imagino que Tostão seja um inconformado e isso deve fazê-lo sofrer. Eu também queria ser um inconformado e ter o direito de sofrer pelo menos um pouco. Mas não posso: sou pequeno e não tenho o direito de sofrer. Meu futuro próximo obriga-me ver meu time se defender com Nikão e o seu grande rival atacar com Negueba.

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