Nelson Rodrigues ensinava para os jovens na redação de “O Globo”, que o jornalista tinha que ficar mais na rua junto do povo do que na redação. Há tempo não passando pela Boca Maldita, fui ter nela ontem na calada da tarde. De repente, fui provocado por um grupo de atleticanos com a seguinte questão: e se Dagoberto voltar para o Atlético? Nem em hipótese haveria resposta para a questão por encampar o impossível: a torcida rubro-negra simplesmente nega Dagoberto.
Mas o fato foi tão inesperado e a questão tão polêmica, que não poderia descartá-los como uma conversa insignificante de rua. Então, lembrei-me da lição do jornalista Ricardo Noblat, do “Globo”: “Se faço ficção, posso inventar o que quiser. Se faço jornalismo, não posso. Devo ater-me aos fatos”.
A provocação de rua me autoriza a fazer uma ficção. Começo perguntando: por onda anda Dagoberto? Confesso que não sei. O primeiro problema: não jogando há seis meses, como estará aos 32 anos de idade? Com as suas virtudes técnicas para jogar, a recuperação física seria natural, aprontando-se em um mês. O segundo problema: como a torcida reagiria, se jurou negar-lhe eternamente? Escale Dagoberto, na Arena da Baixada, deixe-o jogar mesmo sob vaias, e terão: dois gols, e pronto. O perdão da arquibancada chega mais rápido que o perdão do Céu.
Estou chegando em casa, quando o segurança que guarda a rua me pergunta: “É verdade que o Ronaldinho Gaúcho vem para o Atlético por conta da Panasonic?”.
E se essas ficções transformarem-se em fatos?
Tempo
Perguntaram a santo Agostinho o que era o tempo, ele respondeu: “Eu sei que existe, mas não sei o que é”. Antes da Copa, na crise da construção da Baixada, o grandioso jornalista André Pugliesi arguiu várias questões que irritaram o francês Jêróme Valcke. Na defesa do então secretário da FIFA saiu Mário Celso Petráglia: “Eu me envergonho da imprensa paranaense”. Agora, Valcke foi demitido da FIFA por enriquecimento ilícito. Nada como o tempo. Nem precisamos, como santo Agostinho, saber o que significa.