A vida dos homens e dos times depende, às vezes, de episódios quase imperceptíveis, escreveu certa vez Nelson Rodrigues. O fundo dessa lição está na incerteza de um fato esperado. É quando a esperança de uma vitória, que pelas circunstâncias exige um placar extravagante, reclama a intervenção do imponderável.
O Atlético seria dependente desse ambiente no jogo da Vila Belmiro? É preciso lembrar: pela Libertadores, o Furacão perdeu na Vila Capanema para o Santos por 3×2. Para avançar no torneio, em resultado simples, precisa ganhar com diferença de dois gols. Entenda-se como simples, o resultado de 2×0.
Uma previsão otimista a favor do Furacão é complexa. Há os que buscam esperança nas lembranças do confronto com o Santos, em 2005. No jogo da Vila, o Atlético ganhou por 2×0. Mas há um elemento fundamental que impede essa referência: ganhando na Baixada (3×2), não precisa ganhar. É a antiga teoria: uma coisa é jogar podendo até perder, mas outra é ter que ganhar de dois. Naquela, a obrigação concilia-se com a ordem tática do jogo, podendo diminuir os riscos; na outra, a obrigação de alcançar a diferença, exige aumentar o risco de se expor. No futebol atual, em especial, contra o Santos na Vila, não se ganha por acaso.
Mas o Furacão, na sua história, tem atraído o imponderável.
Em 2005, quando estava sendo eliminado, avançou e acabou na final. De repente, um fato imperceptível do mestre Nelson aparece na Vila Belmiro.
Conto de fadas
Já havia antecipado o meu texto e escrito sobre o tema. Mas, aí, leio a manifestação de Gabriel e Matheus, filhos de Caio Júnior, que definindo como um “conto de fadas” o jogo da Chapecoense em Barcelona, afirmam existir o uso indevido do acidente pelo clube de Chapecó.
A questão não é simples, é complexa. Não há nada que provoque mais o sentimento humano, do que a perda. Ela é tão forte, que a sua repercussão provoca uma irresignação, que se manifesta pelas mais diversas formas. Há os que simplesmente ficam em silêncio; outros, que se manifestam, até publicamente. Uma mensagem de saudades, a intransigência com o desatino, o desabafo.
Concordo que a Chapecoense não deve entrar em uma redoma e ali ficar eternamente. É uma instituição, que pertence ao povo de uma cidade, e precisa seguir em frente.
O que ocorre é que o clube não soube e parece não saber tratar dos sentimentos que foram feridos em defesa de sua causa. A sua exposição está tendo caráter comercial, o que implica de forma direta no uso da imagem de quem morreu. Não seria assim, se assumisse solidariamente a sua culpa, porque foi culpada. Mas, ao contrário, ao invés de indenizar as famílias (indenizar no sentido amplo) usa essa solidariedade para benefício próprio.
São nessas ocasiões em que os sentimentos explodem carregados de verdade.