Esperanças

O Louvre era onde é a Marisa, na Rua XV. Todos os dias por lá passava para conversar com o querido e saudoso Munir Calluf. Tinha um gerente de nome Salomão: simpático, brincalhão. Se fazia de gozado. Coxa como o patrão, não queria saber se o Coritiba, no domingo, ganhou do Cruzeiro, do Flamengo ou do Palmeiras. Sua curiosidade era outra: “de quem eles gostaram?”. Para Salomão, o que importava era o que os outros viram em Abatiá, Hidalgo, Jairo, Oberdã e outros astros do Coritiba dos anos 70.

Lembrei de Salomão lendo um site de torcedores. Está lá uma pesquisa sobre o que os jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo viram, falaram e escreveram do gol impedido de André Lima, que frustrou a vitória na grande partida que o Atlético fez no Morumbi.

Ah! O grande Juca falou isso, o imparcial Prado falou aquilo. Só que a curiosidade de Salomão era do tempo em que não tínhamos nada. Não existiam sonhos e nem ilusões de se conquistar títulos nacionais, jogar a Libertadores, e ser de ponta no futebol brasileiro. Então, essa carência era suprida pela opinião dos forasteiros, pelo interesse em um ou outro, ou pela lenda de que Evangelino vendeu um atacante ao Vasco como se fosse Krüger, e era Kosilek.

Mas já fomos campeões do Brasil, e volta e meia estamos na Libertadores. No entanto, continuamos a buscar consolo na benevolência do que os outros pensam, tornando-os seres superiores. Esse sentimento de piedade nada mais faz do que expor as nossas fraquezas, transformando-nos em pobres felizes, como se um dilema moral recuperasse os nossos sonhos desfeitos por um impedimento não marcado.

Fechamos os olhos para os motivos mais importantes. Para os atleticanos, basta a opinião dos outros de que um gol foi ilegal; e para os coxas, que o Coritiba está indo em frente na Copa do Brasil, passando por improváveis Holanda, Bahia, CSA e Ponte Preta.

Certa vez, ao ser indagado se não tinha esperanças, o monumental escritor theco Kafka respondeu: “Esperanças há muitas, mas não para nós”.

Somos assim, felizes, mesmo sendo grandes eventuais, mas pequenos como regra.

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