Era a última bola, não haveria outra.
Tenerife e Andorra, jogavam o último minuto dos acréscimos, quando essa última bola foi lançada para o atacante Jesús de Miguel, do Tenerife. Não viu, ou talvez tenha visto e acreditou na sua velocidade, que o goleiro Jesús Owono, do Andorra, saíra da meta para evitar o gol. Jesús, o goleiro, chutou a bola e o peito de Jesús, o atacante.
Com “trauma torácico acidental”, Jesús de Miguel morreu. Há uma semana, os espanhóis, vestindo luto, jogam futebol chorando.
O fato provocou-me uma forte lembrança.
Coritiba x Água Verde: Belfort Duarte, 11 de abril de 1970, uma tarde sol. Werneck, o meia coxa vindo de Santos, lançou a bola em um espaço vazio. Eis que surge Dirceu Kruger, uma “Flecha Loira”, na feliz expressão do jornalista Albenir Amatuzzi. Repórter da Rádio Guairacá, eu estava atrás do gol de fundos, onde tudo aconteceu.
Feliz porque fazia 25 anos, supremo pela sua técnica, cativante pelo domínio de bola e a sua condução em velocidade, Kruger foi em direção ao gol do Água Verde. Mas no meio do caminho, apareceu o goleiro Leopoldo que, também em velocidade, atacou com o joelho. Com a alça intestinal rompida, Kruger deixou o campo e foi entregue aos médicos e a Deus.
A história não lembra de uma onda tão imensa de orações, em Curitiba, como a feita para que Kruger vivesse. Nem mesmo a visita de um padre, no Hospital Cajuru, afastou a fé dos curitibanos. Minha mãe Adelaide rezava o terço e acendia uma vela todos os dias. Não teve um único dia que não fui ao Cajuru, em busca da notícia da salvação.
E, diferentemente de Jesús de Miguel, Dirceu Kruger, viveu. E voltou a jogar intensamente.
E vejam vocês como é a vida e o futebol. Em uma quarta feira de inverno, de 1972, no Belfort Duarte, Coritiba e Athletico, decidiam o campeonato estadual, quando uma bola foi lançada no espaço vazio da defesa do Furacão. Nele, aparece Kruger, literalmente com uma flecha, entre Di e Alfredo Gottardi, e finaliza o goleiro Picasso. Logo depois, no domingo, 0 a 0, os coxas foram campeões.
Foi quando Kruger me fez chorar. Meu consolo é que não precisei vestir luto por ele.